
O cenário da segurança do trabalho no Brasil passará por uma transformação significativa a partir do próximo dia 26 de maio, quando entra em vigor a nova redação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). A principal mudança é a inclusão formal dos riscos psicossociais como parte integrante dos riscos ocupacionais, obrigando as empresas a adotar medidas concretas para identificar e mitigar fatores que prejudiquem a saúde mental dos colaboradores, como o estresse crônico e o assédio. Essa atualização acompanha um movimento global de conscientização, visto que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já classifica o burnout como um fenômeno ocupacional e o Ministério da Saúde, por meio de uma portaria de 2024, exige a notificação obrigatória de doenças mentais relacionadas ao trabalho, incluindo ansiedade e depressão.
A implementação dessa norma representa um desafio estrutural considerável para o setor produtivo nacional, dado que apenas 10,7% das empresas brasileiras possuem atualmente uma estratégia de saúde mental totalmente estruturada. A trajetória para a validação do novo texto foi marcada por debates intensos, incluindo um adiamento da data inicial de maio de 2025 após pressões de entidades patronais, que alegaram custos adicionais e responsabilidades excessivas impostas às organizações. No entanto, com a vigência confirmada, as empresas deverão obrigatoriamente documentar os riscos psicossociais em seus Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR), avaliando a frequência e o impacto de fatores como a sobrecarga de tarefas e a pressão por produtividade.
Na prática, o cumprimento da norma exigirá mais do que apenas documentos; as empresas precisarão revisar metas, implementar políticas rigorosas de combate ao assédio e manter um monitoramento contínuo sobre a eficácia das ações adotadas. Segundo a psiquiatra Gilmara Bueno, a pandemia alterou permanentemente a perspectiva sobre as doenças mentais no ambiente corporativo, evidenciando que uma cultura focada exclusivamente em alta performance, sem considerar o bem-estar, é insustentável. A especialista sugere que as organizações encarem a nova NR-1 não apenas como uma obrigação legal, mas como uma oportunidade estratégica para promover debates educativos e humanizar as relações de trabalho através de palestras e ações preventivas constantes.