
Os políticos de Bento Gonçalves estão erguendo um monumento à história local. O novo Palácio Legislativo, uma obra imponente de quase R$ 30 milhões, que deveria ser a "casa do povo", o reflexo da pluralidade e da evolução de uma sociedade que se orgulha de seu desenvolvimento. No entanto, antes mesmo de suas portas se abrirem oficialmente, o prédio já exala um odor de mofo não das fundações, mas do simbolismo que vai carregar em suas placas de bronze.
A decisão desta segunda-feira, 27, da Mesa Diretora, formada pelos vereadores Anderson Zanella e Letícia Bonassina (PL), Thiago Fabris (PP) e Sidinei da Silva (PSDB), de batizar os principais espaços da sede o Palácio (Ernesto Geisel), o Plenário (Jauri Peixoto) e o Plenarinho (José Elvio Atzler de Lima) é um exercício explícito de invisibilização feminina. Em uma cidade construída a muitas mãos, onde o trabalho e a força das mulheres foram e são fundamentais para o motor econômico e social da Serra Gaúcha, a Câmara de Vereadores parece acreditar que o mérito público é uma exclusividade biológica masculina. Eles tiveram três oportunidades para escolher, pelo menos, um nome feminino, mas, infelizmente, houve um "esquecimento coletivo".
É curioso, para dizer o mínimo, observar o abismo que separa o discurso da prática. No mês de março, é praxe vermos sessões solenes, flores distribuídas e discursos inflamados sobre a importância da mulher na política e na sociedade. É o "verniz da modernidade". Mas, quando chega o momento de perpetuar a história em placas que ficarão por séculos, a memória seletiva dos parlamentares entra em ação. O resultado é um clube do Bolinha institucionalizado com dinheiro público.
O mais grave não é apenas a escolha dos nomes, mas o processo que levou a ela. Relatos indicam que a sugestão partiu de uma "cabeça só", uma liderança que impõe sua vontade sem espaço para o contraditório. Quando uma Mesa Diretora que, ironicamente, conta com uma mulher em sua composição aceita passivamente essa hegemonia masculina, ela ratifica a ideia de que o feminino é apenas um acessório, e não uma força com poder de decisão e direito à memória.
Onde estavam os outros vereadores e vereadoras durante o debate no plenário? A cegueira coletiva de uma legislatura que não consegue levantar a mão para perguntar "Não vamos homenagear nenhuma mulher? Será que nenhuma mulher fez nada relevante por Bento?" é alarmante. É o machismo estrutural operando em sua forma mais pura: o silenciamento pelo esquecimento.
Ignorar nomes como o de tantas educadoras, líderes comunitárias ou pioneiras que moldaram a cidade não é uma "gafe histórica". É uma escolha política. É dizer, nas entrelinhas, que o Legislativo é um território de homens, para homens e feito por homens.
Agora, resta ao presidente da Casa, o vereador Zanella, uma oportunidade tardia de reparação. Há uma praça de quase R$ 4 milhões no entorno do complexo ainda sem nome. Batizá-la com uma figura feminina relevante não apagará o erro do Palácio de R$ 30 milhões, mas servirá como um lembrete, ainda que do lado de fora, de que as mulheres existem.
Bento Gonçalves merece um Legislativo que olhe para o futuro, e não um que use o concreto novo para sustentar ideias velhas e excludentes. A história não é feita apenas de "patriarcas". É hora de a Câmara de Vereadores aprender a conjugar o verbo representar no feminino. Caso contrário, o novo Palácio será apenas um monumento ao anacronismo.
Porque, no fim das contas, homenagens públicas não são apenas sobre o passado. Elas dizem muito sobre o presente e, principalmente, sobre o tipo de futuro que se pretende construir. E, neste caso, o que se construiu até aqui foi um retrato que já não cabe mais no tempo em que vivemos.