
A política, como bem sabemos, é feita de gestos, momentos e narrativas. A ida do prefeito de Bento Gonçalves, Diogo Siqueira, para o Partido Liberal (PL), visando uma cadeira na Câmara dos Deputados, é um movimento que precisa ser analisado sob duas óticas muito distintas: a oportunidade histórica para o município e a indigesta fatura da viagem.
Vamos aos fatos, divididos para que não restem dúvidas.
A pré-candidatura de Diogo Siqueira deve ser observada com atenção por vários motivos, mas, na minha modesta opinião, a largada foi dada com o pé esquerdo.
Ao acessarmos os dados do Portal da Transparência, fica claro que o prefeito e o atual presidente da Câmara de Vereadores, Anderson Zanella (que está com um pé fora do Progressistas e outro no PL), viajaram a Brasília com passagens e diárias pagas com dinheiro público. O objetivo oficial? Visitar gabinetes e entregar demandas do município entre os dias 17 e 19 de março.
Não duvido que os ofícios estivessem na mala. O problema é que o grande "evento" da viagem acabou sendo a filiação partidária de Diogo no PL. Fazer um movimento político dessa magnitude no meio de uma agenda custeada pelo pagador de impostos é algo que soa, no mínimo, imoral.
O silêncio das redes: Diogo e Zanella são políticos extremamente ativos no ambiente digital — acostumados a postar até o cafezinho da tarde. Curiosamente, nos primeiros dias em Brasília, não vimos uma foto sequer entregando projetos de captação de recursos.
A agilidade da política: Em contrapartida, a foto da filiação ao lado dos caciques do PL chegou rapidamente aos grupos de WhatsApp e redações. Provavelmente, após a repercussão desta coluna, as fotos das agendas oficiais "apareçam" nas redes para alívio geral.
A solução honrosa: Diogo não foi pego de surpresa. Ninguém acorda em Brasília e decide, do nada, assinar com o partido do ex-presidente. Zanella também não foi junto por acaso. Para que a narrativa fique limpa e o falatório acabe, a sugestão é simples: que ambos gravem um vídeo abrindo mão das diárias e devolvendo o valor das passagens aos cofres públicos. É uma quantia irrisória para o peso do desgaste político que ela gera.
Deixando a polêmica das passagens de lado, é preciso reconhecer a força desse movimento. Bento Gonçalves tem agora a grande chance de finalmente eleger um deputado federal e ter representatividade em Brasília, algo que a vizinha Caxias do Sul já sabe aproveitar muito bem.
O teste de popularidade: Diogo Siqueira é um fenômeno de comunicação no município. Se ele conseguir transformar as curtidas e visualizações de seus vídeos diários em votos reais nas urnas, estará eleito com sobras.
O prestígio no PL: O político não chega como um "soldado raso". Ele desembarca na sigla com o aval das presidências estadual e nacional, com a missão de ser um dos puxadores de voto do partido, que projeta eleger até oito deputados federais no Rio Grande do Sul.
O verdadeiro termômetro: Saberemos qual é o real potencial político e eleitoral de Siqueira a partir do início de abril, quando ele precisará renunciar à prefeitura — entregando a caneta ao vice, Amarildo Lucatelli — e deixar a vitrine do Executivo para caminhar com as próprias pernas na planície eleitoral. O jogo, de fato, começa no mês que vem.