
O uso indiscriminado da melatonina está sob o olhar atento da comunidade científica após um estudo alarmante apresentado na Associação Americana do Coração. A análise de mais de 130 mil prontuários médicos indicou que adultos com insônia crônica que utilizaram o suplemento por pelo menos um ano apresentaram uma probabilidade 90% maior de desenvolver insuficiência cardíaca e um risco 250% superior de hospitalização pela mesma condição, quando comparados a quem nunca utilizou a substância.
Embora a Anvisa classifique a melatonina como suplemento alimentar desde 2021, permitindo a venda livre, especialistas reforçam que ela é, na verdade, um neuro-hormônio essencial para a regulação do ritmo circadiano. Segundo a neurologista Giuliana Macedo Mendes, os dados sugerem uma associação tão forte com complicações cardíacas que a população e a classe médica devem encarar o tema com extrema cautela. O estudo também apontou que a probabilidade de morte por qualquer causa foi cerca de duas vezes mais elevada entre os usuários frequentes do hormônio sintético.
A melatonina, produzida naturalmente pela glândula pineal, coordena funções vitais durante a noite, como a redução da temperatura corporal e da pressão arterial. O pesquisador José Cipolla-Neto, da USP, alerta que sua popularização como "pílula do sono" ignora a complexidade de suas funções no organismo. Como os resultados da pesquisa ainda são preliminares, a recomendação atual é que o suplemento jamais seja consumido sem supervisão médica, garantindo que o tratamento de distúrbios do sono não resulte em danos colaterais graves ao sistema cardiovascular.