
A expansão da hotelaria em Gramado, na Serra Gaúcha, deixou de ser apenas um reflexo do aumento no fluxo de turistas e passou a desenhar o futuro desenvolvimento urbano do município. Diante da saturação do centro tradicional, a prefeitura aposta na criação de uma "Nova Centralidade": uma área de 900 hectares localizada na região Norte da cidade que concentrará hotéis, resorts, moradias, comércio e equipamentos culturais. A expectativa é atrair cerca de R$ 15 bilhões em investimentos privados ao longo da próxima década.
A proposta consolida uma mudança de comportamento no setor. Se antes os meios de hospedagem acompanhavam a demanda, agora surgem como empreendimentos-âncora capazes de induzir a ocupação de novas áreas, estimular a infraestrutura e atrair restaurantes e entretenimento. A estratégia busca criar um modelo inspirado no conceito de "cidade de 15 minutos", distribuindo os serviços essenciais e as atividades cotidianas para diminuir a pressão sobre o centro histórico.
O novo ciclo de expansão urbana é regulamentado pela Lei Complementar nº 12/2026 e caminha lado a lado com os debates sobre os impactos ambientais, mobilidade e a preservação da identidade arquitetônica local:
Controle de Escala: Para evitar a saturação hoteleira e hotéis de proporções incompatíveis com o charme do município, o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado (PDDI) passou a limitar o número de unidades por projeto. Há, inclusive, um decreto de moratória para novos hotéis com mais de 20 quartos, abrindo exceção apenas para Projetos Urbanísticos Relevantes, como a Nova Centralidade;
Ancoragem Internacional: O novo polo já atrai marcas de peso. O Club Med, em parceria com o Grupo Sirena e a DC Set Group, prepara para 2027 a abertura de seu primeiro resort da categoria Exclusive Collection na América do Sul. O complexo de alto padrão ocupará 200 mil m² dentro de uma área maior de 2 milhões de m², que incluirá pista de esqui artificial, jardim botânico e parque de arborismo;
Descentralização Econômica: Lideranças do setor hoteleiro local, como os grupos Fioreze e Laghetto, avaliam que a ida de grandes aportes para as margens de corredores como a RS-235 acelera a infraestrutura do entorno. A projeção para a próxima década é de uma Gramado com "dois corações": o histórico, na Rua Coberta, e o novo núcleo focado também no bem-estar dos moradores e em formatos como o turismo de saúde e eventos corporativos;
Habitação e Infraestrutura: Além do foco turístico, a Nova Centralidade foi concebida para receber habitações populares, buscando atenuar o déficit habitacional comum em pólos turísticos. No entanto, empresários alertam que o grande desafio será sincronizar a velocidade dos investimentos privados com a capacidade pública de ampliar a conectividade regional, incluindo melhorias asfálticas e a consolidação de um aeroporto de maior porte na região.