
A queda abrupta no número de visitantes por conta da pandemia no Vale dos Vinhedos, região localizada em Bento Gonçalves, onde prolifera o enoturismo, resultou em um impacto significativo, sobretudo em empreendimentos familiares e de pequeno porte, que dependem quase que exclusivamente do turismo. Segundo a Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale), a diminuição de 42% no número de visitantes entre janeiro e abril de 2021 em relação ao mesmo período de 2020 fez com que o setor deixasse de arrecadar aproximadamente R$ 30 milhões.
Em contrapartida, segundo dados da Ideal Consulting, empresa que mede o comércio entre as vinícolas, supermercados, lojas e restaurantes, o mercado de vinhos teve alta de 31% em 2020. A venda de vinhos nacionais subiu 32,4%. Os números positivos, no entanto, mascaram a realidade de grande parte das vinícolas, a exemplo das que fomentam o enoturismo no Vale dos Vinhedos.
É o caso da Vinícola Torcello, que sofreu uma diminuição significativa no faturamento por conta da pandemia. De acordo com o proprietário do empreendimento, Rogério Valduga, a empresa teve uma queda brusca no número de visitantes. “Éramos uma empresa que dependia da venda do enoturismo, das pessoas que nos visitavam. No ano passado, tivemos uma queda de mais de 80% no número de visitas. Em contrapartida, as vendas on-line cresceram, mas não ao ponto de suprir toda a venda que tínhamos no varejo. No geral, a vinícola faturou 30% menos. Somente em termos de varejo, a queda foi de mais de 70%”, relata.

A Vinícola Torcello é um dos exemplos que traduz a situação de diversos empreendimentos que sofreram e continuam sofrendo perdas significativas no faturamento por conta do cenário atual. De acordo com o presidente da Aprovale, Jones Valduga, a queda na arrecadação impactou não somente as empresas, mas também as 2.000 famílias de trabalhadores do turismo e mais de 800 famílias que vivem no Vale dos Vinhedos.
Segundo Jones, o impacto será sentido por, no mínimo, dois anos após a pandemia estar sob controle. “No Vale dos Vinhedos temos uma porcentagem muito grande de empresas que se beneficiam exclusivamente do turismo. São famílias que abriram seus empreendimentos percebendo as oportunidades que esse movimento oferece. Essas pequenas empresas são as que mais estão sofrendo e foram as que precisaram se adaptar de forma mais brusca. O mesmo ocorreu com as vinícolas familiares, que precisaram adaptar suas vendas”, explica.
Queda na arrecadação
Um levantamento promovido pela Aprovale destacou as consequências no enoturismo da queda inesperada e expressiva no número de visitantes no Vale dos Vinhedos. Entre março e junho do ano passado, a região turística contou com uma diminuição de 76% de turistas em relação ao mesmo período de 2019 e, em julho, o percentual subiu para 84%. Especificamente em vinícolas, houve uma queda de 78% no número total de visitas.
De acordo com os dados da Aprovale, em 2020 o Vale dos Vinhedos recebeu 214 mil visitantes a menos em comparação a 2019. Levando em consideração o ticket médio de R$ 800/dia de investimento pelo turista em visita na região — de acordo com a pesquisa realizada pela empresa Entre Rios para a prefeitura de Bento Gonçalves em 2019 — , a associação estima que mais de R$ 170 milhões deixaram de ser arrecadados pelo enoturismo.
Jones afirma que, no entanto, nenhuma empresa precisou encerrar as suas atividades por conta do momento atual, conseguindo manter as vendas por meio de outras alternativas. “Sabemos que, para tanto, os negócios precisaram realizar financiamentos, empréstimos, renegociar compromissos e, infelizmente, afastar funcionários. Estamos, junto a outras entidades do setor, trabalhando para que as empresas retomem suas atividades e não precisem fechar”, explica.

Ao contabilizar o setor do turismo de Bento Gonçalves, entre janeiro e março de 2021, o município recebeu cerca de 132 mil visitantes a menos em relação ao mesmo período de 2020. A prefeitura realizou um levantamento com o setor sobre os impactos dos últimos meses por conta das restrições de horário impostas pelo governo do Estado para combater a pandemia: mais de 50% das empresas que responderam a pesquisa afirmaram existir a possibilidade de encerrar as atividades.
Segundo o secretário municipal de Turismo, Rodrigo Parisotto, os dados assustam: “É preocupante imaginarmos que 50% das empresas podem deixar de existir em 90 dias. Sempre estivemos preocupados, por isso nunca deixamos de agir”, afirma.
Dentre as ações adotadas pela prefeitura foi o “selo de ambiente seguro”, protocolo de segurança sanitária que, inclusive, foi adotado por praticamente todas as empresas que fomentam o enoturismo do Vale dos Vinhedos. “Todas as ações sempre foram focadas em garantir segurança e evitar aglomerações”, pondera o secretário.
Segundo Rodrigo, dentre os setores mais afetados foi os serviços de hotelaria que, de acordo com dados coletados pela prefeitura, conseguiu alcançar apenas 27,79% de ocupação em 2020.
Flexibilização
Com a mudança da região para a bandeira vermelha no modelo de distanciamento controlado, e de acordo com o novo decreto que flexibiliza algumas atividades, as vinícolas poderão retomar as visitas guiadas. Segundo a Aprovale, o passeio é o “carro-chefe” do Vale dos Vinhedos.
“Estamos, junto a outras entidades do setor, trabalhando para que as empresas retomem suas atividades e não precisem mais fechar. Também estimulamos que o turista não cancele a sua viagem, mas remarque para um período oportuno, ou que realize suas compras pela internet. Isso propicia que as empresas tenham algum recurso com o que trabalhar e, principalmente, tenham ânimo para seguir em frente”, destaca o presidente da Aprovale.

Apesar das dificuldades, o secretário de turismo de Bento Gonçalves observa que empreendedores estão investindo no setor no município. “Lutamos para que ninguém feche e sabemos que, mesmo na dificuldade, novos negócios estão chegando em Bento Gonçalves, o que demonstra que mesmo com todo impacto negativo da pandemia, muitos investidores estão vindo para a cidade. A pandemia também traz novas oportunidades”, analisa.
Alternativas para manter as vendas
Empresas de grande porte localizadas no Vale dos Vinhedos tiveram resultados positivos com a fomentação do e-commerce, televendas e outras alternativas. É o caso da Vinícola Miolo, que em 2020 teve um aumento de 15% no faturamento em plena pandemia. “O e-commerce e o televendas compensaram a queda do enoturismo. Hoje, até um pequeno armazém precisa estar on-line. Realizamos um projeto grande com o e-commerce da Wine (site especializado na venda on-line de vinhos), que começou com os 30 anos da Miolo, em 2019, e foi concluído em 2020”, afirmou o diretor-superintendente Adriano Miolo, em entrevista ao site NeoFeed.
No entanto, a maioria das empresas, apesar do investimento em outras alternativas, não conseguiram compensar as perdas. “Estamos utilizando muito o telemarketing, vendas online, o e-commerce, as redes sociais e trabalhando novas revendas. As vendas on-line cresceram, mas não ao ponto de suprir toda a venda que tínhamos no enoturismo. Estamos com a expectativa que neste ano, com a vacinação, as coisas melhorem”, pondera o proprietário da Vinícola Torcello, Rogério Valduga.

Segundo o presidente da Aprovale, as empresas encontraram no meio on-line uma forma de manter, mesmo que diminutas, as suas vendas para continuar fomentando a economia do setor vitivinícola. “As nossas vinícolas seguem comercializando vinhos através de suas lojas virtuais, assim como as agroindústrias. Já os restaurantes atendem em sua maioria a população local neste momento. Estamos nos reinventando de maneira geral e isso de certa forma também é bom. Estamos conhecendo novas alternativas que muito provavelmente venham para agregar valor ao Vale dos Vinhedos”, pondera Jones Valduga.