Sábado, 03 de Outubro de 2026
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O voto que você acha que não vale nada pode ajudar Bento, o RS e o Brasil

Em sua coluna, Marcelo Dargelio lembra que neste domingo, 4, o eleitor de Bento decide sobre seis cargos — e os dois que mais mudam a vida da cidade são os que menos gente estuda.

Marcelo Dargelio
Por: Marcelo Dargelio
03/10/2026 às 08h37 Atualizada em 03/10/2026 às 09h20
O voto que você acha que não vale nada pode ajudar Bento, o RS e o Brasil

Neste domingo, 4 de outubro, você vai acordar com uma escolha. Não a escolha de em quem votar. Essa é sua, e eu não vou opinar sobre ela aqui. Falo da escolha anterior, a que muita gente faz sem perceber que está fazendo: ir ou não ir. São cerca de meia hora, entre o tempo de você sair de casa, votar e retornar. Porém, esses 30 minutos podem fazer muita diferença nos próximos 4 anos.

Em 2022, 19,78% dos eleitores gaúchos não compareceram ao primeiro turno. São 1,7 milhão de pessoas. No Brasil, a abstenção chegou a 20,9%, a maior em 24 anos. Um em cada cinco. Não são números abstratos. São cadeiras vazias que alguém ocupa do mesmo jeito.

Aqui está o detalhe que faz diferença, e que raramente aparece na conversa de mesa de bar, nos corredores das empresas. Quando você não vota, a eleição não fica menor. Ela fica mais concentrada. O total de votos válidos diminui, e cada voto que foi depositado passa a pesar proporcionalmente mais. Sua ausência não é neutra: ela transfere poder para quem foi.

E a mesma lógica vale para o voto nulo. Ele não entra no cálculo dos votos válidos; o resultado é definido apenas entre os votos efetivamente válidos. Você acha que está dizendo "nenhum destes". A urna entende "decidam por mim".

Os dois votos que Bento Gonçalves não pode ignorar

Neste domingo, você vota seis vezes: deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e presidente. A atenção vai quase toda para os dois últimos. Mas pense nos assuntos que o NB publicou só nas últimas semanas.

A ponte de Santa Bárbara, destruída em 2023, está sendo reconstruída com R$ 31,3 milhões, dos quais R$ 24,4 milhões são federais. Deputados federais têm papel importante na articulação e destinação de recursos federais, inclusive por meio de emendas parlamentares. Hoje, dependemos de uma balsa para atravessar até São Valentim do Sul. 

A fila de cirurgias eletivas em Bento tem 10.258 pessoas. O município conseguiu destinar R$ 5,5 milhões para 2.200 procedimentos. Sobram mais de 8 mil. Emendas parlamentares de deputados são uma das vias para reduzir esse número. O Complexo de Saúde do Trabalhador corre contra um prazo estadual de 31 de outubro. Deputados estaduais podem cobrar, fiscalizar e articular junto ao governo estadual questões como essa.

Ou seja: os dois cargos que menos atenção recebem são exatamente os que mais decidem se a sua cidade terá ponte, cirurgia e hospital. E são os que exigem mais trabalho do eleitor, porque a lista é imensa e ninguém aparece no Jornal Nacional.

Existe um argumento sincero contra tudo isso, e eu respeito: "é tudo igual, não muda nada".

Mas repare no que aconteceu em Bento neste ano. O prefeito renunciou em março para disputar uma vaga em Brasília. A cidade trocou de comando por causa de uma candidatura. Um deputado estadual da cidade teve 26.803 votos aqui em 2022, 40% dos válidos no município, e isso lhe dá peso para pedir recursos.

Gostando ou não dos nomes, a conclusão é a mesma: Votos locais podem ampliar a representação política da região — e representação significa mais capacidade de disputar recursos, projetos e atenção em Porto Alegre e Brasília. Quem não participa não deixa de ser governado. Só deixa de ser consultado.

E tem o lado menos nobre, que também é real: Quando parte do eleitorado fica em casa, grupos politicamente mais mobilizados passam a representar uma parcela maior dos votos efetivamente depositados. Abstenção não é imparcialidade. É entrega de poder.

Não vou dizer em quem votar. O NB não faz isso, e eu também não.

Vou dizer apenas o seguinte: leve o documento com foto, confira seu local de votação, e reserve cinco minutos antes de sair de casa para olhar quem são os candidatos a deputado da nossa região. Cinco minutos. É menos tempo do que você vai gastar reclamando da política nos próximos quatro anos.

Votar não garante que o país melhore. Nunca garantiu, em lugar nenhum.

Mas não votar garante que a decisão seja tomada sem você. E essa, sim, é uma certeza.