
A crise no Supremo Tribunal Federal ganhou sua fase mais grave nesta terça-feira (1º), com a divulgação de um relatório da Polícia Federal que atribui a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, mensagens enviadas ao ministro Alexandre de Moraes com pedidos de ajuda para conter investigações. O relator do caso no STF, André Mendonça, retirou o sigilo dos documentos, pediu manifestação da Procuradoria-Geral da República e defendeu que o plenário examine o material em sessão pública.
As descobertas não representam condenação nem comprovam que Moraes tenha atendido aos pedidos. Não há denúncia formal contra o ministro, que negou em março ter recebido as mensagens. Tampouco há indicação de que o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, ou o procurador-geral Paulo Gonet tenham agido a favor do banqueiro.
O que dizem as mensagens
Segundo a perícia, Vorcaro enviou ao menos 28 mensagens a um telefone atribuído a Moraes entre 12 e 17 de novembro de 2025, nos dias que antecederam sua primeira prisão — com registros de contato desde outubro, quando o Master afundava. Nos textos, o banqueiro pede que o ministro procure Rodrigues e Gonet, sugere que o diretor da PF seja "sensibilizado" a adiar medidas cautelares e pergunta se haveria "algo que dê para bloquear". Em outro trecho, questiona se deveria deixar o país.
O relatório não apresenta o conteúdo de todas as respostas atribuídas ao número do ministro. Conforme a PF, Vorcaro escrevia no bloco de notas, fotografava a tela e enviava as imagens por WhatsApp em visualização única — a corporação diz ter reconstruído a sequência analisando quase 32 mil registros de atividade do aparelho, vinculando as mensagens ao contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA". Para os investigadores, o material indica que o banqueiro tinha informação antecipada sobre a Operação Compliance Zero. Vorcaro foi preso na noite de 17 de novembro, em Guarulhos, ao se preparar para embarcar em um jato particular; no dia seguinte, o Banco Central liquidou o Master.
O contrato com o escritório da esposa
O relatório também detalha a relação anterior entre os dois. A PF aponta dois encontros na casa do ministro, em São Paulo, em dezembro de 2023, intermediados pelo ex-ministro Fábio Faria. Semanas depois, o escritório Barci de Moraes, da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, enviou a Vorcaro a minuta de um contrato de serviços jurídicos ao Master — 36 parcelas de R$ 3 milhões, total estimado em cerca de R$ 131 milhões. Metadados citados na perícia indicam que duas versões da minuta tiveram a última edição feita por um usuário identificado como "Ministro Alexandre de Moraes".
O escritório confirmou que consultou o ministro, na condição de marido da sócia, apenas para verificar eventual impedimento legal. Afirmou que o contrato não previa atuação no STF, que Moraes nunca julgou processo do Banco Master e que os serviços foram prestados. Em mensagens com funcionários, Vorcaro teria tratado os pagamentos como prioridade absoluta — em uma cobrança, Faria teria se referido ao ministro pelo apelido de "careca". Contratos entre um banco e o escritório de familiares de um ministro não configuram, por si, ilegalidade; eles ganharam relevância na investigação por aparecerem associados aos encontros e aos pedidos de ajuda.
O que acontece agora
Mendonça afirmou que o caminho "inevitável" é levar o material ao plenário, a quem caberá decidir se há elementos para abrir investigação específica contra Moraes. A PGR tem cinco dias para se manifestar. Até a publicação desta reportagem, o ministro não havia respondido publicamente aos novos elementos. A matéria será atualizada.