
Bento Gonçalves é tratada por moradores, turistas e pelo setor do vinho como a Capital Nacional do Vinho. Mas há uma curiosidade: o título ainda não foi oficializado por lei federal. A formalização só começou a andar no Congresso com o Projeto de Lei 3.869/2025, apresentado pelo deputado federal Lucas Redecker (PSDB-RS), em 11 de agosto de 2025. A proposta confere ao município gaúcho o título de Capital Nacional do Vinho de forma oficial.
O texto do projeto é curto. O artigo 1.º concede o título a Bento Gonçalves. O artigo 2.º prevê que a lei passe a valer 90 dias depois da publicação, caso seja aprovada pela Câmara, pelo Senado e sancionada pelo presidente da República. Até agora, a proposta já avançou em uma etapa. A Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural aprovou o parecer do deputado Afonso Motta (PDT-RS) em 20 de maio de 2026. A tramitação mais recente mostra o projeto na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, ainda aguardando relator.
O caso chama atenção porque a própria Prefeitura de Bento Gonçalves apresenta a cidade como “Capital Brasileira do Vinho” em seu perfil institucional. O município afirma que é pioneiro na produção vinícola no Brasil e no desenvolvimento do enoturismo. Também cita a Fenavinho, criada em 1967, como o evento que projetou a cidade nacionalmente e consolidou esse reconhecimento público.
O projeto tenta transformar essa fama em chancela oficial. Na justificativa, Lucas Redecker cita a força histórica, econômica, cultural e turística da vitivinicultura local. O texto destaca o Vale dos Vinhedos, em área que abrange Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, como marco da produção nacional. A região recebeu Indicação de Procedência em 2002 e Denominação de Origem em 2012, a primeira voltada a vinhos no Brasil.
Na prática, a lei não cria repasse automático de dinheiro nem muda impostos. O efeito mais provável é institucional. O município passaria a usar o título em campanhas oficiais, materiais turísticos, eventos, projetos de promoção e pedidos de apoio. O parecer aprovado na Comissão de Agricultura diz que a medida contribui para promover o setor vitivinícola brasileiro e valorizar uma cadeia produtiva estratégica.
A mudança também pode ajudar Bento Gonçalves a reforçar sua marca turística. Em maio de 2026, a Wine South America reuniu mais de 430 marcas expositoras, representantes de mais de 20 países e cerca de 7 mil compradores profissionais na cidade. Segundo a organização, o evento movimentou cerca de R$ 120 milhões em negócios e fortaleceu hotéis, restaurantes, transporte, comércio e atrativos turísticos.
A força do vinho aparece ainda na vindima, período de colheita da uva. O Ministério do Turismo já tratava Bento Gonçalves como “Capital Brasileira da Uva e do Vinho” em conteúdo sobre a festa, que atrai visitantes para colheita, pisa da uva, vinícolas, gastronomia típica, Maria Fumaça e roteiros rurais.
A iniciativa tem apoio local. Em agosto de 2025, a Câmara Municipal de Bento Gonçalves registrou moção de apoio ao PL 3.869/2025. O texto afirma que o reconhecimento oficial estimula o enoturismo, valoriza gerações de vitivinicultores e fortalece o setor como patrimônio econômico e cultural do País.
O projeto tramita em caráter conclusivo nas comissões. Isso significa que, se for aprovado nas comissões e não houver recurso para votação em plenário, poderá seguir sem passar pelo plenário da Câmara. Depois, ainda precisará avançar no Senado e receber sanção presidencial para virar lei.
Até lá, Bento Gonçalves segue em uma situação incomum: é conhecida, vendida e visitada como capital do vinho, mas ainda espera o carimbo oficial de Capital Nacional do Vinho.