
Mudar de casa. Mudar de cidade. Mudar de Estado. Mudar de país. Nenhuma dessas decisões são simples de serem tomadas, mas sim necessárias em certas circunstâncias e foi isso que a haitiana Magdala Damis, de 45 anos, decidiu vivenciar. Ela veio sozinha e grávida do Haiti para Bento Gonçalves no final de 2016 para buscar uma vida com mais estabilidade e mesmo passando por dificuldades, o seu maior sonho era ter a sua família ao redor e graças a estudante de psicologia, Thaís Magagnin, seu desejo foi realizado. Na última segunda-feira, 09 de janeiro, o seu marido e seus dois filhos desembarcaram na cidade após a criação de uma rede de solidariedade que ajudou Magdala a se reencontrar com seus entes queridos depois de seis anos de espera.
Tudo começou quando a estudante de psicologia, Thaís Magagnin, realizava o seu estágio no CRAS II, no bairro Juventude da Enologia, em Bento Gonçalves, no ano de 2017. Nessa época, Magdala já havia dado à luz ao seu bebê, Kachemi, o qual foi o fomentador dessa relação. “Conheci a Magdala em 2017, quando eu estagiava na Assistência Social e ela frequentava o Cadastro Único para programas sociais. Quando ela levou Kachemi um dia no espaço, logo me apaixonei por ele e depois disso, ela sempre passava no CRAS II e entrava pra me dar um abraço. Magdala vivia em uma situação muito precária, chegando a dormir alguns dias na rua, sem ter o que comer nem mesmo roupas e fraldas pro Kachemi. O que tinham eram doações de algumas profissionais do Hospital e a cesta básica oferecida pelo Governo, porém não era todos os meses que conseguia,” conta a estudante de psicologia.
Em uma dessas visitas para atualização de cadastro, Thaís se deparou com as condições que a mãe e o filho viviam. Era uma casa improvisada, sem geladeira e nem utensílios básicos de saúde e higiene. Então, a partir desse momento, a jovem começou a acompanhar a situação mais de perto e acabou criando um vínculo com eles que se transformou em uma relação de muito carinho e afeto. “Um tempo depois do término do período de estágio, continuei mantendo contato com a Magdala e nisso ela me convidou para batizar o “Kach” e ser dinda dele e claro que aceitei,” relembra Thaís.
Nesse meio tempo Mag conseguiu se mudar para uma casa melhor, arrumou um emprego como auxiliar de limpeza e por sorte, cruzou com muitas pessoas boas no caminho. Em 2020, Thaís começou a ajudar no processo de trazer o marido de Magdala, Robert Theagene Celine e seus dois filhos, Sterline Theagene Celine de 22 anos, e Merten Theagene Celine, de 12 anos para o Brasil. “A Mag, e sua família que ficou no Haiti, moravam na cidade de Petit-Gôave, há mais ou menos 60km da capital Porto Príncipe. Desde que começamos o processo para trazer a família para o Brasil foram dois anos de espera. Nisso, conseguimos encontrar a Associação de Haitianos, que se chama Associação da Integração Social localizada em Porto Alegre, que se dedica, principalmente, em assegurar os direitos dos imigrantes e refugiados buscando sua inclusão na sociedade brasileira. Depois deles nos ajudarem com os trâmites, começamos a juntar dinheiro para trazer os três familiares, então criamos uma rifa e uma vaquinha online, além de uma quantia guardada por Mag, que resultaram nos R$ 33 mil necessários para o pagamento dos documentos e passagens,” conta Magagnin.
De acordo com a Thaís, o processo é longo e complicado, porém não pensaram em desistir em nenhum momento. “O processo é bastante complexo, tivemos altos e baixos, momentos de desespero e outros de esperança, mas um ponto importante foi que encontramos uma Associação séria e responsável que nos deu todo o suporte. O que mais prolongou o processo foi a pandemia e os desastres naturais e sociais que ocorreram no Haiti que impediram e dificultaram muito que as companhias aéreas fizessem o voo de lá com destino ao Brasil,” destaca a estudante de psicologia.
Porém, mesmo com todos os percalços, essa história teve um final feliz. Na última segunda-feira, 09 de janeiro, a família de Magdala chegou a Terra da Uva e do Vinho com muita emoção e alegria. “É difícil de descrever como foi o momento, lembro que senti muita gratidão e alívio. Eles chegaram em casa e todos da família se juntaram para fazer uma oração para mim e todas as pessoas que ajudaram de alguma forma nesse processo. Foi muito emocionante, muitas lágrimas de felicidades e agradecimento. Eu sabia que esse momento ia chegar, mas não achei que fosse tão forte. Assim que vi a Magadala com sua família, tive a sensação de dever cumprido e de ser muito abençoada por ter a família e amigos que tenho, que me ajudaram em cada momento. E também a todas pessoas que se mobilizaram com a causa,” descreve Thaís.
A família agora busca emprego, tanto o Robert quanto a filha mais velha, Sterline, para ajudarem na renda da casa. Eles ainda não sabem falar português fluentemente, mas estão dispostos a aprender. Todos demonstram muita perseverança e vontade de trabalhar e quem quiser ajudar nessa busca ou colaborar com doação de alimentos ou roupas pode entrar em contato pelo WhatsApp 54 9931-6293, com Thaís.