Domingo, 08 de Novembro de 2026
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Pai deixa hospital de maca para abençoar filha em casamento na Serra

Após 95 dias de internação para tratar leucemia, homem de 69 anos foi levado de ambulância à igreja para realizar o desejo de acompanhar a cerimônia.

Marcelo Dargelio
Por: Marcelo Dargelio
08/11/2026 às 10h59
Pai deixa hospital de maca para abençoar filha em casamento na Serra
Remi Domingos Lorandi conseguiu deixar o hospital para acompanhar o casamento da filha Gabrieli e do genro Cássio - Fotos: Maria Zotti

Um pai de 69 anos, internado havia 95 dias para tratar uma leucemia, conseguiu deixar temporariamente o hospital em uma ambulância de UTI móvel para realizar um desejo: estar presente no casamento da filha e abençoá-la diante do altar. A cerimônia aconteceu em 3 de outubro de 2026, em Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, e exigiu uma operação especial com acompanhamento médico.

O protagonista da história é Remi Domingos Lorandi, pai de Gabrieli Lira Lorandi, de 30 anos, que se casou com Cássio Fernando Aguiar Mello, de 31. Diagnosticado com leucemia mieloide aguda em julho, Remi enfrentou sessões de quimioterapia, infecções e períodos na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Mesmo durante os momentos mais delicados do tratamento, uma pergunta era frequente: quantos dias faltavam para o casamento da filha?

Segundo Gabrieli, o pai nunca quis que a cerimônia fosse cancelada. A expectativa de participar daquele dia havia se transformado em uma motivação importante durante a internação.

Uma doença que mudou os planos da família

O diagnóstico de leucemia mieloide aguda com cariótipo complexo veio em 1º de julho de 2026, três meses antes do casamento.

O primeiro protocolo de quimioterapia não apresentou a resposta esperada, levando os médicos a iniciar uma segunda etapa de tratamento. Na sequência, complicações infecciosas agravaram o quadro clínico e exigiram cuidados intensivos.

O casamento havia sido marcado em janeiro, quando a família ainda não imaginava os desafios que enfrentaria.

Diante da gravidade da doença, os familiares chegaram a considerar o adiamento da celebração. Remi, porém, insistiu para que os planos fossem mantidos.

A alternativa inicialmente organizada com auxílio das psicólogas do hospital era transmitir a cerimônia ao vivo, permitindo que o pai acompanhasse tudo pelo quarto. Depois, Gabrieli e Cássio iriam visitá-lo, ainda vestidos de noivos, para receber sua bênção.

Uma possibilidade surgiu às vésperas do casamento

Poucos dias antes da cerimônia, Remi apresentou melhora suficiente para deixar a UTI e retornar ao quarto.

Foi então que o hematologista Thiago Daltoe apresentou à família uma segunda possibilidade: transportar o paciente até a igreja em uma ambulância de UTI móvel, equipada para oferecer suporte médico durante todo o deslocamento.

A decisão dependeria das condições clínicas de Remi e de uma estrutura capaz de garantir sua segurança.

Quando soube da possibilidade, ele não teve dúvidas.

"Eu disse que ia no casamento e eu vou! Eu quero ir, eu quero ir, eu quero ir!", respondeu, conforme relato de Gabrieli.

Em menos de 24 horas, familiares e profissionais de saúde organizaram a operação. Foi necessário providenciar ambulância, médico acompanhante e toda a logística de saída e retorno ao hospital.

A chegada à igreja surpreendeu os convidados

Poucas pessoas sabiam que Remi poderia comparecer ao casamento. A família preferiu manter a possibilidade em sigilo porque tudo dependia das condições de saúde dele nas horas anteriores à cerimônia.

Quando a ambulância chegou à igreja, muitos convidados foram surpreendidos pela presença do pai da noiva.

Debilitado e sem condições de se levantar da maca, Remi acompanhou a celebração com o suporte necessário.

A entrada de Gabrieli também precisou ser adaptada. Como o pai não poderia conduzi-la até o altar, a tarefa ficou com a mãe da noiva, companheira de Remi há 39 anos.

Uma bênção que marcou o casamento

Gabrieli encontrou o pai Remi aos prantos ao pedir sua benção para o casamento

 

Ao se aproximar do pai, Gabrieli encontrou Remi emocionado, chorando.

Ela contou que se aproximou para dizer o quanto estava feliz por vê-lo ali. O pai respondeu que também estava muito feliz e que aquele era exatamente o lugar onde desejava estar.

Foi então que Remi fez o sinal da cruz na testa da filha, abençoou o casal e conversou com o genro.

O gesto, simples e breve, representou a realização de um desejo que parecia cada vez mais distante durante os meses de tratamento.

Para Gabrieli, a experiência também mudou a forma como a família passou a enxergar os momentos cotidianos.

"Aprendemos a valorizar ainda mais os momentos, as pessoas e as pequenas conquistas", relatou.

Retorno ao hospital e continuidade do tratamento

Assim que a cerimônia terminou, Remi retornou ao hospital na mesma ambulância, diretamente para o quarto em que estava internado.

Conforme as informações divulgadas pela família em reportagem de 7 de novembro, ele permanecia hospitalizado, mas apresentava avanços importantes: já não necessitava de oxigênio, não utilizava sondas e havia voltado a se alimentar sozinho.

O tratamento contra a leucemia continuava, mas Remi havia conseguido realizar um dos desejos que mais o acompanharam durante a internação: participar do casamento da filha.