Segunda, 26 de Outubro de 2026
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Dólar dispara mais de 12% e chega a R$ 5,60 nesta segunda

Ibovespa acionou o mecanismo de suspensão pela primeira vez desde março de 2020; dólar bateu R$ 5,6047 e depois recuou, enquanto o Tesouro cancelou leilões da semana.

Marcelo Dargelio
Por: Marcelo Dargelio
26/10/2026 às 11h30 Atualizada em 26/10/2026 às 13h21
Dólar dispara mais de 12% e chega a R$ 5,60 nesta segunda

A B3 acionou nesta segunda-feira (26) o circuit breaker, mecanismo que suspende as negociações em quedas acentuadas. Foi o primeiro desde março de 2020 — há seis anos.

A interrupção ocorreu às 9h57 e durou 30 minutos, no primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno de domingo (25).

A Bolsa

Às 12h42, o Ibovespa caía 14,44%, aos 175.466,12 pontos, depois de registrar mínima perto de 169,5 mil pontos.

Na sexta-feira (23), último pregão antes da votação, o índice havia fechado em alta de 0,47%, aos 205.082,56 pontos. A diferença até o início da tarde desta segunda é de quase 30 mil pontos.

O dólar

A moeda americana abriu a R$ 5,4247, alta de 8,64%, e chegou à máxima de R$ 5,6047 no mercado à vista pela manhã — valorização de 12,25% sobre o fechamento de sexta-feira, de R$ 4,99.

O patamar não se sustentou. Por volta das 12h41, o dólar recuava para R$ 5,415, com alta de 8,45% no dia.

A PTAX parcial divulgada pelo Banco Central às 12h09 ficou em R$ 5,4497 na compra e R$ 5,4503 na venda.

Tesouro cancela leilões

O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e indexados à inflação previstos para 27 a 29 de outubro, mantendo apenas o leilão de títulos atrelados à Selic, marcado para terça-feira.

O órgão também recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões em NTN-Fs, movimento destinado a suavizar a alta das taxas de juros, e informou que seguirá monitorando as condições de mercado.

A B3 elevou de 6% para 12%, apenas para o pregão desta segunda, o limite superior de oscilação dos contratos futuros de dólar e dos minicontratos.

O que diz o governo

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta segunda-feira que o governo vai mudar a lei ou, se necessário, a Constituição para buscar o centro da meta fiscal ainda este ano.

O que dizem os analistas

O resultado da eleição contrariou as pesquisas divulgadas na reta final. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.

Para Chris Turner, do banco ING, a questão fiscal é o principal ponto de fragilidade apontado pelo mercado, em um cenário de déficit entre 7% e 8% do PIB e dívida líquida em torno de 70% do PIB. Ele cita promessas de campanha, como a redução da jornada semanal de trabalho, entre os fatores de pressão sobre os ativos brasileiros.

A Ágora Investimentos avalia que a composição da equipe econômica e os primeiros sinais de política fiscal devem definir a duração e a intensidade do movimento. A corretora considera possível uma atuação do Banco Central no câmbio.

Já o Wells Fargo projetava o dólar a R$ 5,30 no cenário de reeleição, e avalia que fatores externos e o diferencial de juros podem sustentar o real adiante.

Analistas também não descartam que o Banco Central retome o aperto monetário. A Selic está em 13,75% ao ano.

Nem todo mundo perde

O movimento do câmbio beneficiou as empresas exportadoras listadas em bolsa. Até o início da tarde, subiam Suzano (+8,22%), Embraer (+7,43%), Vale (+5,57%), WEG (+4,56%) e Klabin (+3,24%).

Entre as maiores quedas estavam a Vamos (−55,38%) e empresas do setor de petróleo e gás, como Brava (−8,25%) e PetroRecôncavo (−12,58%), em um dia em que o petróleo também recuou no exterior.

Um dado que ajuda a dimensionar

Apesar da intensidade do movimento, o patamar do dólar não é inédito para 2026.

Até sexta-feira, a moeda acumulava queda de 9,10% no ano. Isso significa que o dólar começou 2026 por volta de R$ 5,49. Na cotação do início da tarde desta segunda, a R$ 5,415, a moeda estava abaixo do nível em que iniciou o ano.

Mesmo na máxima da manhã, a R$ 5,6047, o dólar esteve cerca de 2% acima do patamar de janeiro.

Ou seja: a alta desta segunda devolveu, em poucas horas, boa parte da valorização que o real havia acumulado ao longo de dez meses.

O que isso significa para a Serra Gaúcha

A variação cambial tem efeitos opostos sobre a economia da região.

Pressiona custos de quem importa — vinícolas que compram barricas, rolhas, equipamentos e insumos no exterior, e as indústrias metalmecânica e moveleira, que dependem de máquinas e componentes importados.

Favorece quem exporta, ao tornar o produto brasileiro mais competitivo em dólar, e tende a encarecer viagens internacionais, o que historicamente beneficia destinos turísticos nacionais.

O efeito prático, porém, depende da duração do movimento. Oscilações de um dia raramente se transferem a preços; o que pesa é o patamar que se consolida nas semanas seguintes.