
A adrenalina de equilibrar uma bicicleta aro 20 sobre rampas, corrimões e transições íngremes é uma rotina que Cassiano Galves domina desde 2002. Mais de duas décadas após dar suas primeiras pedaladas nas praças de Bento Gonçalves — em uma época em que o BMX Freestyle sequer sonhava em ser modalidade olímpica —, o veterano de 37 anos provou que a paixão pelo esporte segue intacta. Em uma temporada marcada pelo desafio físico e pelo superlativo esforço pessoal, Cassiano sagrou-se vice-campeão do Campeonato Gaúcho de BMX Freestyle, consolidando-se como uma das maiores referências do esporte no Rio Grande do Sul.
A conquista do segundo lugar estadual, no entanto, carrega um peso que vai muito além das manobras executadas nas voltas decisivas de um minuto. Ela representa o triunfo da resiliência sobre a dor física e sobre a falta crônica de estrutura para treinar em sua cidade natal.
A caminhada até o vice-campeonato gaúcho deste ano começou com um fantasma herdado da temporada anterior. Na última etapa do Estadual passado, quando também lutava pelas primeiras posições, Cassiano sofreu um grave acidente durante sua primeira volta.
"Uma das maiores dificuldades que enfrentei este ano foi uma lesão que tive na última etapa do campeonato do ano passado, quando tirei meu braço fora do lugar", revela o atleta. "Consegui pontuar na primeira volta, mas não fiz a segunda. Mesmo assim, fiquei como vice-campeão estadual. Este ano foi difícil porque fiz todo um processo de recuperação, fisioterapia, academia. Não estou na minha melhor condição física, mas consegui trazer o braço de volta para retomar as atividades."
Mesmo longe dos 100% da sua capacidade física, Cassiano precisou usar a experiência a seu favor para encarar o circuito gaúcho, onde cada etapa apresenta um desafio técnico diferente. No BMX Freestyle, os competidores têm 60 segundos para impressionar os juízes em um skate park, combinando altura, fluidez, grau de dificuldade e uso de todo o espaço.
"Cada etapa é numa cidade e numa pista diferente, com sua complexidade, seu nível de dificuldade, transições, rampas e alturas distintas", explica. "A gente tem que se adaptar e encarar o medo. Para montar as apresentações, quando o campeonato é anunciado com dois meses de antecedência, procuramos ir até o local ao menos duas vezes antes. Treinamos uma volta limpa, boa, com as manobras que temos na base, e arriscamos algumas novas para aumentar a pontuação."
A regularidade e a precisão nas manobras garantiram ao bento-gonçalvense o segundo lugar geral no Rio Grande do Sul pelo segundo ano consecutivo. Sem tempo para descansar, ele já projeta o próximo compromisso: um campeonato de nível nacional em Campo Bom. "Estou muito feliz com o vice-campeonato e sei que tem muita coisa boa pela frente", comemora.
Se o desempenho nas pistas rende medalhas e troféus, o cotidiano de treino revela a face mais dura da rotina do atleta. Bento Gonçalves, cidade que viu o BMX crescer e que sediou em 2023 o 1º Campeonato Municipal da modalidade — organizado de forma 100% independente por Cassiano e amigos, sem verba pública —, hoje não oferece uma pista adequada para os treinos de alto rendimento.
A reforma da pista da Praça Centenário, local histórico do esporte na cidade, virou motivo de profunda frustração. A antiga estrutura foi demolida, mas a nova obra estagnou.
"A Praça Centenário tinha mais estrutura antigamente do que agora", desabafa o piloto. "Foi destruída a pista antiga para ser feita a reforma, mas o que nós temos hoje é só um piso, alguns caixotes e corrimões. Não foi feita nem a metade do que deveria. O pessoal teve que colocar rampas de madeira lá para poder andar porque não tem onde praticar."
A outra opção na cidade, a pista da Praça Ouro Verde, também não atende às exigências técnicas. "É uma pista para lazer, não tem angulação e nem a estrutura adequada para a gente praticar o nosso esporte", avalia.
Sem espaço em Bento Gonçalves, a solução encontrada por Cassiano é viajar semanalmente para cidades vizinhas, como Farroupilha, Caxias do Sul e Flores da Cunha, arcando com todos os custos de combustível, manutenção do carro e tempo de deslocamento.
"Eu perco muito tempo no percurso", detalha. "Trabalho durante a semana e, no sábado à tarde, pego o carro e levo 40 minutos até Farroupilha. Me equipo, me me alongo e ando das 14h30 até as 16h30. Tem o gasto alto de combustível e a logística, sendo que eu poderia ter isso a 15 minutos de casa. Eu, como cidadão que vivi a vida inteira aqui, vejo que era para a cidade ter evoluído, mas nós perdemos o que tínhamos."
A luta de Cassiano por espaço não é isolada. Há quase dois anos, ele e outros praticantes fundaram a Associação Bento-gonçalvense de BMX (ABGBMX), que hoje conta com 12 associados formais e mobiliza cerca de 50 praticantes e simpatizantes no município. O objetivo da entidade era buscar diálogo com o poder público para captar verbas e reformar a pista do Ouro Verde, mas o retorno das autoridades tem sido desanimador.
"A gente sente um pouco de discriminação ou de desleixo com o nosso esporte, porque vemos que não é levado a sério", lamenta Cassiano, comparando o cenário gaúcho com estados como Paraná e São Paulo, onde pistas públicas modernas retêm os atletas de nível nacional. "Eu não peço para a gente ser visto da mesma forma que o futebol, porque isso demanda muito mais gente. Mas acho que tínhamos que ter uma fatia do bolo. Ser reduzido a zero, sem ninguém pelo poder público que olhe por nós e diga 'vamos apoiar esse pessoal', é muito complicado. Às vezes dá a impressão de que, por sermos minoria, pensam 'deixa eles ali, esses não vão incomodar'."
A escassez de pistas afeta diretamente a formação de novos talentos. Meninos que antes aprendiam os primeiros saltos com os veteranos hoje se arriscam em praças e ruas por falta de praças esportivas adequadas.
Apesar dos obstáculos, ver a continuidade do esporte é o que renova as forças do vice-campeão. Um dos maiores orgulhos de Cassiano é acompanhar a evolução de Igor Carvalho, de 21 anos, jovem atleta de Bento Gonçalves que começou no esporte aos 13 e hoje é uma das grandes promessas do BMX gaúcho.
"O Igor Carvalho é um 'cria' da gente", conta Cassiano, com um tom de admiração e carinho patronal. "Ele era uma criança quando ia lá ver a gente andar nos anos 2000, 2008, 2010. Criou aquela vontade, virou um dos nomes mais bem falados no Rio Grande do Sul, um piloto muito técnico e forte. Mas que, infelizmente, também dá uma desgostada às vezes pelo fato de não ter mais onde andar."
Ao olhar para a bicicleta aro 20 que o acompanha há mais de 20 anos, Cassiano Galves não esconde o desejo de ver o BMX Freestyle ser respeitado em sua plenitude. Entre a paixão pelas manobras e a responsabilidade de ser o pilar da modalidade na cidade, o experiente piloto segue pedalando — contra o vento, contra a dor e contra o descaso —, provando que o maior título de um atleta é a recusa em deixar o seu esporte morrer.


