
Os oito candidatos de Bento Gonçalves declararam ter recebido, até esta quinta-feira (10), R$ 2,59 milhões para as campanhas às vagas de deputado federal e estadual. Do total, R$ 2,49 milhões vêm do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o Fundo Eleitoral — dinheiro público. Os dados constam do DivulgaCandContas, sistema do Tribunal Superior Eleitoral em que os candidatos informam receitas e gastos.
Os valores são parciais e seguem sendo atualizados até o fim da campanha.
Dois nomes, 88% do dinheiro público
Guilherme Pasin (PP), candidato à reeleição para deputado estadual, tem o maior valor entre todas as candidaturas da cidade: R$ 1.216.002,64, sendo R$ 1.196.002,64 do Fundo Eleitoral destinado pelo diretório nacional do partido e R$ 20 mil de pessoa física. Sozinho, ele responde por quase metade de todo o recurso público que chegou às campanhas de Bento até o momento.
Em seguida vem Diogo Siqueira (PL), candidato a deputado federal, com R$ 1.014.400 — R$ 1 milhão do Fundo Eleitoral pelo diretório nacional e R$ 14.400 em doações de pessoas físicas. Juntos, os dois concentram 88% do dinheiro público destinado às candidaturas da cidade. PP e PL, somados, respondem por 92% desse montante.
A concentração dos valores tem explicações distintas em cada caso. Guilherme Pasin exerce mandato de deputado estadual e concorre à reeleição. É prática comum entre as direções partidárias destinar cotas maiores a quem já ocupa cadeira no Legislativo — a lógica é proteger o desempenho eleitoral do partido, já que candidatos com mandato costumam ter maior chance de reeleição e ajudam a compor o quociente partidário, que define quantas vagas cada legenda conquista.
Diogo Siqueira disputa pela primeira vez uma vaga na Câmara dos Deputados, mas chegou à campanha como aposta do diretório nacional do PL. Ele deixou o PSDB e se filiou ao partido, e o repasse de R$ 1 milhão para a campanha foi acertado diretamente com o presidente nacional da legenda, Valdemar da Costa Neto.
A diferença entre os dois casos ilustra as duas lógicas que costumam orientar a divisão do fundo: a proteção de mandatos existentes e a aposta em nomes novos com potencial de puxar votos.
As demais candidaturas
Entre os candidatos a deputado estadual, Joel Bolsonaro (PL) declarou R$ 155 mil: R$ 100 mil do fundo, R$ 50 mil de pessoa física e R$ 5 mil de pessoa jurídica. Bruna Marin (MDB) informou R$ 106 mil, sendo R$ 100 mil do fundo pelo diretório nacional. Raquel Möller (PDT) recebeu R$ 50 mil, integralmente do Fundo Eleitoral.
Na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados, além de Diogo Siqueira, Milton Milan (Novo) declarou R$ 30 mil do Fundo Eleitoral repassados pelo diretório nacional. Fernanda Juliana (Podemos) informou R$ 13.139, vindos dos diretórios nacional e estadual. Adenir José Dallé (MDB) declarou R$ 9 mil, integralmente de doação de pessoa física — é o único da lista sem qualquer recurso partidário.
Quem decide a divisão
O candidato não escolhe quanto recebe do Fundo Eleitoral: a distribuição entre as candidaturas é decidida pelas direções partidárias. O levantamento é, portanto, um retrato de onde cada legenda está apostando.
O caso do MDB ilustra bem: o partido destinou R$ 100 mil a Bruna Marin e nenhum recurso a Adenir José Dallé. Também não há regra que obrigue a distribuição igualitária — a decisão é política e leva em conta fatores como mandato em exercício, histórico de votação, região de origem e alianças internas. Receber recursos do fundo é previsto em lei, e valores maiores ou menores não indicam qualquer irregularidade.
Como funciona o Fundo Eleitoral
O Fundo Especial de Financiamento de Campanha é dinheiro do Orçamento da União, criado após a proibição das doações empresariais a campanhas. O montante total é definido anualmente pelo Congresso e dividido entre os partidos conforme critérios como tamanho da bancada na Câmara e votação obtida na eleição anterior. Cada legenda decide internamente quanto vai para cada candidato. A prestação de contas final é entregue à Justiça Eleitoral após o pleito e passa por análise, que pode resultar em aprovação, aprovação com ressalvas ou rejeição.
Para dimensionar
Os R$ 2,49 milhões de recursos públicos declarados pelas nove candidaturas equivalem a cerca de 70% do custo da creche do bairro Fenavinho, orçada em R$ 3,5 milhões e com a obra parada desde julho. A comparação é de escala: trata-se de recursos de origens e finalidades distintas, já que a creche é bancada por convênio federal com o FNDE.