Quinta, 13 de Agosto de 2026
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Gaúcha perde R$ 37 milhões em golpe do falso investimento

Vítima transferiu o valor em seis meses acreditando investir em criptomoedas, orientada por um falso professor; polícia deflagra operação com 10 prisões preventivas.

Marcelo Dargelio
Por: Marcelo Dargelio
13/08/2026 às 08h41
Gaúcha perde R$ 37 milhões em golpe do falso investimento

Durante seis meses, uma mulher gaúcha acreditou que estava fazendo investimentos altamente lucrativos pela internet. Era orientada, em um grupo de WhatsApp, por um homem que se apresentava como professor e especialista em finanças. Nesse período, transferiu R$ 37 milhões para as plataformas indicadas por ele.

Tudo fazia parte de um esquema controlado por uma organização criminosa internacional, que aplica o chamado pig butchering — o "golpe do abate de porcos". O caso ocorreu entre agosto de 2024 e janeiro de 2025 e passou a ser investigado pela Polícia Civil.

Nesta quinta-feira (13), o Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos deflagrou a Operação Criptoabate contra os suspeitos. São 10 mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão, cumpridos no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em São Paulo. Ao todo, 18 pessoas foram identificadas como suspeitas — as outras oito receberam medidas cautelares. Ninguém foi julgado ou condenado até o momento.

Como o golpe funciona

A característica que torna esse tipo de fraude especialmente danosa é o tempo. Diferentemente dos golpes tradicionais, aplicados em um único momento, aqui a vítima é mantida em erro por meses.

"A vítima é mantida em erro durante um relevante período de tempo e realiza diversas transferências. Costuma ser um golpe que tem um prejuízo econômico muito mais alto do que o normal", explica o delegado João Vitor Herédia, da Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos.

No caso investigado, a vítima foi inserida em um grupo de mensagens que simulava uma comunidade legítima de estudos sobre o mercado financeiro. Um homem que se apresentava como "professor Miguel" dava as orientações. Outros integrantes se passavam por alunos e clientes, exibindo supostos rendimentos acima do mercado.

A plataforma indicada mostrava os valores "crescendo" na tela — o que estimulava aportes cada vez maiores. "Como a vítima olha aqueles valores crescendo no aplicativo, encoraja-se cada vez mais a realizar sucessivos depósitos", diz o delegado.

A armadilha do saque

O momento decisivo chega quando a vítima tenta retirar o dinheiro. Os saques são bloqueados, e surgem novas exigências: supostas taxas, impostos ou valores "necessários para a liberação do patrimônio". Cada pagamento é seguido de uma nova justificativa, e a vítima continua transferindo na esperança de recuperar o que já investiu.

Não foi um caso isolado

Segundo a polícia, o grupo em que a vítima gaúcha estava inserida tinha cerca de 140 outros integrantes. Foram identificadas vítimas em outros estados — uma delas, no Rio de Janeiro, com prejuízo superior a R$ 8 milhões.

Relatórios de investigação financeira apontam movimentações suspeitas de mais de R$ 30 bilhões. "Essa operação desarticula um grupo criminoso altamente especializado em fraudes financeiras e que vinha fazendo vítimas em todo o Brasil", afirma o delegado Eibert Moreira Neto, diretor do departamento.

A investigação apontou uma estrutura com divisão de tarefas: captação de vítimas, abertura de contas bancárias, movimentação dos valores, intermediação financeira e conversão em criptoativos. O dinheiro passava por várias empresas antes de ser convertido em moedas digitais e movimentado entre carteiras, o que dificulta o rastreamento. Entre os investigados há dois estrangeiros que operavam a parte financeira, e uma gerente de banco suspeita de facilitar procedimentos internos.

Como se proteger

O golpe do "abate de porcos" tem sinais reconhecíveis. Fique atento se:

  • Você foi adicionado a um grupo de investimentos sem ter pedido, ou foi convidado por alguém que conheceu recentemente pela internet.
  • Há um "especialista" ou "professor" dando orientações, cercado de pessoas que relatam ganhos altos e constantes.
  • A rentabilidade prometida é muito acima do mercado. Nenhum investimento legítimo garante lucro alto e sem risco.
  • A plataforma não é conhecida ou não está registrada na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). É possível consultar gratuitamente no site da CVM se uma corretora tem autorização para operar.
  • Você é pressionado a aportar mais ou a agir com urgência.
  • Ao tentar sacar, surgem taxas. Este é o sinal definitivo: plataforma legítima não cobra para devolver seu próprio dinheiro.

Se você foi vítima: registre boletim de ocorrência, reúna prints das conversas, comprovantes de transferência e dados das contas para onde enviou o dinheiro, e procure a delegacia. Quanto mais rápido, maior a chance de bloqueio dos valores.

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