
Prestes a completar 136 anos, uma das perguntas mais frequentes de quem visita ou pesquisa sobre a cidade é: por que Bento Gonçalves se chama assim? A resposta guarda uma bela ironia histórica. A capital brasileira do vinho, construída por imigrantes italianos, leva o nome de um herói gaúcho da Revolução Farroupilha que nunca morou ali — e que morreu décadas antes de a cidade adotar seu nome. Esta é a história de como uma colônia de nome Dona Isabel virou Bento Gonçalves.
A cidade recebeu o nome atual em 1890, por ocasião de sua emancipação política. Ao desmembrar a antiga Colônia Dona Isabel e transformá-la em município, o governo provincial decidiu homenagear Bento Gonçalves da Silva, o principal líder da Revolução Farroupilha e presidente da República Rio-Grandense por cinco anos.
Foi uma escolha de peso simbólico. Em 11 de outubro de 1890, o governador Cândido Costa publicou o Ato nº 474, que separava a Colônia Dona Isabel do município de São João de Montenegro e dava à nova cidade o nome do mais célebre revolucionário gaúcho. A data de emancipação é comemorada até hoje.
Antes de ser Bento Gonçalves, a região teve outros nomes — e cada um conta uma parte de sua história.
O primeiro foi Cruzinha. Antes mesmo da chegada dos imigrantes italianos, os tropeiros que passavam pela região a chamavam assim por causa de uma pequena cruz fincada no local. Era um ponto de referência no meio do caminho, nada mais.
Depois veio Colônia Dona Isabel. Em 1870, por decreto do governo da província, foi criada oficialmente a colônia — nome escolhido em homenagem à Princesa Isabel. Foi sob esse nome que, a partir de 1875, começaram a chegar os imigrantes italianos que colonizariam a Serra Gaúcha e transformariam a mata fechada em vinhedos.
Só em 1890, com a emancipação, a Colônia Dona Isabel deixou de existir como tal e nasceu o município de Bento Gonçalves.
Bento Gonçalves da Silva (1788–1847) foi militar e revolucionário, um dos nomes mais importantes da história do Rio Grande do Sul. Nasceu em Triunfo, em 23 de setembro de 1788, filho de uma família de estancieiros. Maçom e defensor de ideias liberais, tornou-se o principal líder da Revolução Farroupilha.
Curiosamente, ele não tinha relação direta com a região que hoje leva seu nome. Não nasceu ali, não viveu ali e morreu em 18 de julho de 1847, em Pedras Brancas, mais de quarenta anos antes de a cidade adotar seu nome. A homenagem foi póstuma — um reconhecimento à sua importância para a história gaúcha.
Para entender a homenagem, é preciso entender a revolução. A Revolução Farroupilha, também chamada de Guerra dos Farrapos, foi um movimento que se estendeu por cerca de dez anos, de 1835 a 1845, e é a mais longa guerra civil da história do Brasil.
O estopim veio em 1835, quando Bento Gonçalves, destituído do comando militar pelos conservadores, se rebelou contra as autoridades da província, derrubando o presidente provincial e dando início ao conflito. Em 11 de setembro de 1836, os farroupilhas proclamaram a República Rio-Grandense — e, embora Bento Gonçalves estivesse preso naquele momento, foi eleito presidente da nova república pelas câmaras municipais, cargo que ocuparia por cinco anos.
Foi essa trajetória — de líder militar a presidente de uma república separatista — que fez de Bento Gonçalves da Silva um símbolo da bravura e do ideal de liberdade gaúcho.
Aqui está o que torna a história tão interessante. A cidade foi construída por imigrantes italianos, com sua língua, sua fé, seu vinho e sua culinária — uma identidade profundamente ligada à imigração italiana. E, no entanto, recebeu o nome de um herói da tradição gaúcha, ligado às guerras do século XIX.
A escolha, feita em 1890, refletia o espírito da época: o Rio Grande do Sul recém-saído do Império, republicano, buscava celebrar seus grandes nomes históricos. Bento Gonçalves da Silva era o maior deles. Dar seu nome a um município emergente era inscrever a nova cidade na história grande do estado.
O resultado é uma cidade que carrega, no próprio nome, o encontro de duas heranças: a bravura farroupilha dos gaúchos e o trabalho dos imigrantes italianos. Duas histórias que, no dia a dia de Bento Gonçalves, convivem lado a lado.
Hoje, quando alguém pronuncia "Bento Gonçalves", pensa em vinho, em Vale dos Vinhedos, em gastronomia italiana. Poucos lembram que o nome vem de um general que lutou por uma república no sul do Brasil. Mas é justamente essa camada esquecida que dá profundidade à identidade da cidade.
Na próxima vez que alguém brindar com uma taça de vinho em Bento Gonçalves, vale lembrar: o nome na placa da cidade não é de um imigrante nem de um produtor de vinho, mas de um revolucionário que sonhou com a liberdade — e que, sem nunca ter pisado ali, batiza há mais de um século a capital brasileira do vinho.
Por que essa história continua importante?
Porque o nome de uma cidade é o primeiro capítulo da sua identidade. Entender por que Bento Gonçalves se chama assim revela como duas grandes heranças — a tradição farroupilha gaúcha e a imigração italiana — se encontram no coração da Serra Gaúcha. É uma história fundacional, que ajuda moradores e visitantes a compreender que a cidade é feita de muito mais do que vinho: é feita de memória, luta e reinvenção.
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