
O cenário pós-desastre na Venezuela ganha contornos cada vez mais dramáticos e escancara a gravidade da crise humanitária que assola o país caribenho. Passados 13 dias desde o duplo terremoto de magnitude devastadora que sacudiu o território venezuelano no dia 24 de junho, mais de 150 corpos foram sepultados sem qualquer tipo de identificação formal. A constatação foi feita por jornalistas da agência internacional AFP neste domingo (5), no estado costeiro de La Guaira, a região mais severamente castigada pelos tremores.
Os sepultamentos estão ocorrendo em uma área isolada do cemitério La Esperanza. No local, trabalhadores e moradores da região realizam uma força-tarefa para abrir covas individuais desde o dia seguinte à tragédia. A realidade observada nos cemitérios choca a população e entra em rota de colisão direta com o discurso oficial da presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. Em pronunciamento recente, a governante havia garantido de forma enfática que nenhuma vítima seria enterrada sem o devido reconhecimento por meio de impressões digitais, fotografias ou exames de arcada dentária forense.
O avanço dos sepultamentos sem nome expõe o colapso dos serviços de perícia e assistência do governo venezuelano diante da magnitude do desastre:
Promessas Descumpridas: "Eu, desde o início, disse: ninguém vai para vala comum", havia declarado Delcy Rodríguez em coletiva. Embora os túmulos atuais sejam individuais, a falta de identificação quebra o compromisso de dar respostas definitivas às famílias;
Logística Austera: Cada sepultura é marcada apenas por uma cruz branca simples e uma placa metálica com a inscrição genérica "Identificação especial", acompanhada da data da tragédia: 24 de junho de 2026;
Apagão de Informações: O Palácio de Miraflores evita divulgar um balanço oficial de pessoas desaparecidas. No entanto, agências internacionais ligadas à Organização das Nações Unidas (ONU) projetam uma estimativa alarmante de que o número de desaparecidos possa chegar a 50 mil.
Até o momento, o balanço de mortos na região afetada já ultrapassa a marca de 3 mil vítimas fatais. O atraso na recuperação dos escombros e a falta de estrutura — que tem obrigado famílias a transportarem seus próprios mortos em veículos particulares — geram uma onda de protestos e profunda indignação popular.