
O Papilomavírus Humano (HPV) é responsável por cerca de 7,5 mil mortes e mais de 29 mil hospitalizações anuais no Brasil. Os dados alarmantes são fruto de um estudo publicado na revista científica Human Vaccines & Immunotherapeutics, que analisou os indicadores oficiais do Ministério da Saúde. O levantamento acende o alerta para a importância da prevenção primária, uma vez que a esmagadora maioria desses casos graves e óbitos poderia ser evitada com o avanço da cobertura vacinal e exames preventivos regulares.
De acordo com o estudo, as mulheres continuam sendo as principais vítimas da infecção, concentrando 85% das complicações. O câncer de colo do útero se consolidou como a maior preocupação de saúde pública associada ao vírus, respondendo por 74,3% das internações e 77,3% das mortes no período analisado.
Apesar do foco histórico nas mulheres, a pesquisa reforça que o HPV não escolhe gênero. O vírus está diretamente ligado a oito tipos de cânceres que afetam ambos os sexos, atingindo órgãos como vagina, vulva, ânus, pênis, além de tumores na orofaringe, laringe e cavidade oral (cabeça e pescoço).
Câncer anal: Apresentou o crescimento mais expressivo em letalidade no país, com alta de 10,9% na mortalidade. Homens que mantêm relações sexuais com homens e indivíduos imunocomprometidos são os grupos mais suscetíveis.
Cabeça e pescoço: Esses tumores afetam quatro vezes mais os homens do que as mulheres. Diferentemente do útero, essas áreas não dão sinais por lesões precursoras tratáveis, fazendo com que a vacina seja a única barreira de proteção disponível.
Outro dado que preocupa os especialistas é a idade dos diagnósticos. Enquanto outros tipos de tumor surgem geralmente após os 50 anos, o câncer de colo do útero apresenta volume expressivo de internações já a partir dos 30 anos, vitimando mulheres jovens em plena idade reprodutiva.
Cintia Parellada, diretora executiva de Pesquisa de Dados da farmacêutica MSD, aponta que apenas 40% das brasileiras realizam o exame de Papanicolau periodicamente. Essa baixa adesão faz com que os tumores sejam descobertos apenas em fases invasivas e avançadas, reduzindo as chances de cura.
Para tentar reverter o cenário e buscar a erradicação da doença nos próximos 20 anos, o Ministério da Saúde atualizou as diretrizes do SUS. Agora, a recomendação para pessoas entre 25 e 64 anos é a realização do teste DNA-HPV oncogênico. A tecnologia identifica se o vírus presente pertence às cepas com potencial cancerígeno. Se o teste der negativo, a paciente só precisa repetir o procedimento após cinco anos.
Disponível gratuitamente no SUS, a vacina contra o HPV é indicada para meninos e meninas de 9 a 14 anos, faixa etária onde a eficácia é máxima por anteceder o início da vida sexual. O governo federal promove campanhas de resgate para jovens não imunizados de até 19 anos, além de garantir as doses para pacientes imunocomprometidos e usuários de PrEP. Para os demais públicos adultos, o imunizante pode ser encontrado na rede privada de clínicas.