
O vigor econômico de Bento Gonçalves, impulsionado pela resiliência de seu setor produtivo e pelo "boom" imobiliário, esbarra hoje em uma barreira invisível, mas paralisante: o atraso na infraestrutura. Enquanto a cidade atrai novos moradores — seja pela força de suas empresas ou pelo êxodo climático de regiões vizinhas —, o planejamento urbano corre para tentar alcançar uma demanda que já transbordou. A pergunta que ecoa nos conselhos técnicos é se a Capital do Vinho está apenas crescendo ou se está, de fato, se desenvolvendo com sustentabilidade.
Para Roberto Meggiolaro Junior, ex-presidente da iniciativa Bento+20, a sustentabilidade da expansão municipal tem seu maior desafio no trânsito. O "Masterplan" da cidade aponta para duas soluções de infraestrutura: a criação de um anel viário, integrando a BR-470 e a ERS-444, e o reaproveitamento do trecho urbano da via férrea. "Reconhecemos que o Poder Público percebe a necessidade, mas esbarramos nos altíssimos custos de implementação", afirma.
Sobre a linha férrea inativa, Meggiolaro ressalta que as propostas variam de corredores de ônibus a um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), mas defende a necessidade de um estudo técnico detalhado para definir a alternativa mais eficaz para o transporte. Como ponto positivo, a liderança destaca a sinergia de projetos educacionais conduzidos em parceria com o município.
Risco de desindustrialização e falhas no saneamento
A análise do economista e ex-presidente do Bento+20, Adelgides Stefenon, é ainda mais contundente. Para ele, a infraestrutura não acompanha o crescimento há tempos e o diagnóstico é preocupante: Bento corre o risco real de perder arrecadação para cidades vizinhas como Garibaldi e Farroupilha. "Bento poderá perder grandes complexos industriais simplesmente porque não há mais áreas médias ou grandes para implantação", alerta Stefenon.
Ele também classifica as iniciativas de saneamento como "tímidas" diante da necessidade urgente de tratar 100% do esgoto e garantir o abastecimento de água para as próximas décadas. "Urge o desenvolvimento de infraestrutura para recepção de empresas. Bento poderá
perder grandes complexos industriais e logísticos simplesmente porque não há mais áreas médias ou grandes para implantação", destaca o economista.
“A ampliação do IPURB atuando junto ao Bento+20 para transformação do instituto num órgão de planejamento mais amplo; bairros mais planejados, rodovias duplicadas e perimetrais, lei da inovação (em estruturação no InovaBento e Bento+20), utilização da
via férrea urbana para projetos de melhoria logística e de saúde, contínua aposta na
educação e saúde. Para isso a cidade precisa de ações e pessoas dispostas a correr riscos
na implantação dos projetos”, ponta Stefenon.
Densificação como alternativa
A Ascon Vinhedos, entidade que representa o setor de construção civil local, foca na otimização da estrutura já existente. A instituição defende o que chama de "densificação qualificada", argumentando que o crescimento urbano é mais eficiente quando ocorre em bairros já consolidados, utilizando a verticalização responsável como saída para aproveitar a rede de serviços instalada.
Sem a aplicação ágil e contínua de planos estruturantes, Bento Gonçalves opera hoje com um modelo de gestão reativo e corre o risco de se tornar apenas um "dormitório" luxuoso enquanto perde investimentos e negócios para os vizinhos da Serra.