
Moradores e empresários da localidade de São Valentim, localizada no distrito de Tuiuty, em Bento Gonçalves, chegaram ao limite da paciência com o serviço de fornecimento de energia elétrica. Nesta terça-feira (24), a região enfrentou um ciclo de quase 20 horas ininterruptas de escuridão. Segundo os relatos, o apagão em São Valentim ocorre de forma crônica, mesmo em dias de céu limpo e sol forte.
A falta de investimentos na infraestrutura por parte da concessionária e a dificuldade de comunicação direta têm gerado indignação entre as famílias locais e provocado prejuízos financeiros severos para o turismo na Serra Gaúcha.
A situação tornou-se insustentável para os empreendedores locais. Jô Tomasi, proprietária da Afeto Pousada, localizada na BR-470 (km 207), relata que a última falta de luz ultrapassou as 15 horas de duração, mesmo sem qualquer registro de chuva no distrito.
A empresária suspeita que a rede da RGE esteja sobrecarregada ou que o transformador local seja insuficiente para suprir a demanda que cresceu no período pós-pandemia. Para o setor hoteleiro, o prejuízo é direto e gera constrangimentos. Sem energia, Jô precisa improvisar o atendimento aos hóspedes. Já houve casos de turistas tomando banho frio ou precisando se deslocar até postos de gasolina na BR-470 apenas para usar um secador de cabelo.
O preparo das refeições também é afetado. "Já servi café da manhã com liquinho... fazer as coisas do jeito que dá, na panela, na chaleira, porque o forno não funciona", lamenta a proprietária. Sem o funcionamento de ares-condicionados ou ventiladores, os hóspedes são obrigados a dormir com as janelas abertas, lidando com o incômodo dos pernilongos.
O calvário no interior não é recente. Márcia Elisa Pelegrini Elias, que reside na localidade há 20 anos, afirma que as quedas de energia são um problema histórico, mas que se intensificaram drasticamente nos últimos cinco anos.
A moradora relata uma forte sensação de abandono. "Dá a impressão que desligam a rede, termina o turno e deixam lá", desabafa Márcia, destacando a revolta de ficar no escuro enquanto vizinhos do outro lado do asfalto continuam com o abastecimento normal.
O cenário crítico não é exclusividade de São Valentim. Moradores de rotas turísticas importantes, como o Vale dos Vinhedos, além dos municípios vizinhos de Monte Belo do Sul e Santa Tereza, também relatam apagões constantes, instabilidade e queima de eletrodomésticos. A comunidade aponta que o agravamento geral ocorreu após as enchentes de 2024 (há dois anos), sem que a manutenção da rede elétrica acompanhasse a necessidade de reconstrução da região.
Procurada para comentar os transtornos, a CPFL RGE limitou-se a emitir uma nota informando que "uma equipe esteve no local e o serviço foi normalizado às 12h15 desta terça-feira, 24".
Para os moradores e empresários afetados, a resposta técnica é insuficiente. Reuniões anteriores realizadas com vereadores e registros formais no Procon chegaram a surtir efeito, mas a normalidade durou apenas um mês antes que os apagões retornassem à rotina do distrito.
Para os consumidores que sofrem com o péssimo serviço prestado, existem medidas que ajudam a formalizar as reclamações e buscar os direitos garantidos por lei:
Guarde os protocolos: Anote e salve todos os números de protocolo gerados em ligações, aplicativos e SMS. Eles são a principal prova da recorrência do problema.
Ressarcimento de danos materiais: Se aparelhos elétricos queimarem devido às oscilações, o consumidor tem o prazo de até 90 dias para solicitar o ressarcimento junto à concessionária. É preciso informar data, hora exata do ocorrido e as características do equipamento danificado.
Acione o Procon e a AGERGS: Quando o atendimento da RGE não solucionar o caso, a denúncia deve ser formalizada no Procon municipal ou na Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS (Agergs), órgão responsável por fiscalizar a qualidade do fornecimento de energia.
Investimento em contingência: Para evitar a paralisação total, empresas têm recorrido ao uso de geradores de energia. Trata-se de uma necessidade amarga, visto que o custo de aquisição e manutenção do equipamento ainda é proibitivo para pequenos empreendimentos rurais.