
A crise estrutural na Secretaria Municipal de Educação (SMED) de Bento Gonçalves continua a gerar reflexos diretos na rotina de centenas de famílias. O foco atual das reclamações recai sobre a Escola Municipal Infantil (EMI) Recanto Alviazul, localizada no bairro São João. Pais e responsáveis denunciam que a falta de monitores transformou a instituição em um ambiente frio, despido de atividades lúdicas no saguão e marcado por falhas graves no acolhimento e na segurança das crianças.
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O primeiro grande obstáculo enfrentado pelas famílias é o que chamam de "labirinto dos horários". Enquanto a unidade opera majoritariamente das 6h30 às 18h, as turmas do Jardim A foram submetidas a uma janela restrita de atendimento: das 7h25 às 17h15. A rigidez da regra obriga pais e alunos a aguardarem do lado de fora da escola, gerando aglomerações diárias.
"Tem que ficar 20 pais com 20 crianças na pequena passarela que tem entre o portão de fora e a porta do saguão esperando o horário. É um espaço aberto, quando estiver 5 graus e chovendo também vamos ficar de fora?", questiona uma das mães. O impacto atinge em cheio a classe trabalhadora. Para conseguir deixar o filho no horário imposto, um pai relatou que precisa sacrificar o próprio intervalo de almoço no trabalho. Mães que dependem de transporte público, como Elenice Maria Linhares, veem-se obrigadas a sair mais cedo do serviço ou pagar terceiros para buscar os filhos.
O ponto mais crítico das denúncias, no entanto, transcende o relógio e expõe a vulnerabilidade dos alunos. Guilherme, pai de duas crianças matriculadas na instituição, relatou um episódio alarmante: ao chegar à escola, encontrou o portão aberto e sua filha de apenas quatro anos sozinha no pátio, sem qualquer supervisão de adultos.
Além da falha de segurança estrutural, há relatos de negligência com a saúde dos menores. O mesmo pai conta que seu filho, portador de uma alergia grave, sofreu uma reação severa após as monitoras não aplicarem o repelente enviado pela família. Segundo ele, a escola alegou ter usado uma versão em spray (que não havia sido enviada) e negou o acesso às imagens das câmeras de segurança para esclarecer o fato. "Encontrei o guri sozinho, sem nenhum acolhimento, sentado num canto chorando, todo empipocado", desabafa.
A justificativa repassada aos pais para a inflexibilidade dos horários e o fim das atividades no saguão é a crônica falta de profissionais enviados pela Prefeitura de Bento Gonçalves. O problema não é um caso isolado da EMI Recanto Alviazul. Na EMI Espaço dos Sonhos, o cenário se repete com um déficit estimado em 10 monitores, resultando em bebês de apenas seis meses sendo mandados de volta para casa no momento da entrega.
Ao tentar resolver o apagão de mão de obra com a restrição de horários e a exclusão dos espaços de convivência, o sistema educacional do município é criticado por atuar de forma mecânica, esquecendo o propósito principal da educação infantil. A eficiência administrativa exigida para o cumprimento estrito das regras parece estar sendo construída sobre o cansaço dos pais e a falta de amparo às crianças.