
A rotina escolar em Bento Gonçalves começou com um gosto amargo para dezenas de famílias. Além dos já conhecidos desafios com a falta de vagas em creches e o déficit de monitores, um novo problema bateu à porta — ou melhor, passou direto por ela. Relatos de pais e mães indicam um cenário de desorganização no transporte escolar municipal, com vans circulando praticamente vazias enquanto famálias são obrigadas a caminhar sob sol ou chuva com seus filhos, após terem o benefício cortado dias antes do início das aulas.
O caso escancara uma falha de empatia e de logística na Secretaria Municipal de Educação (SMED), que se apega a planilhas e decretos enquanto ignora a realidade das ruas e o fato de que o transporte já está sendo pago pelos cofres públicos.
O relato de Sirlene Pauletto Fernandes, de 36 anos, moradora do bairro São João, ilustra a falta de lógica do sistema. Após um esforço da direção da escola para manter suas filhas de 6 e 8 anos juntas, a burocracia municipal decidiu que apenas a mais velha tem direito à van. Para a pequena de 6 anos, que faz exatamente o mesmo trajeto para a mesma instituição, a vaga foi negada. O resultado é um pai precisando refazer todo o horário de trabalho para levar as duas, enquanto a van faz a rota todos os dias com lugares sobrando.
A indignação se repete com Andréa Jenifer Dias de Oliveira, de 25 anos, moradora do bairro Nossa Senhora da Saúde. Seu filho de 7 anos, que utilizava o transporte escolar no ano passado, teve o direito cassado às vésperas das aulas. O motivo? A distância de 900 metros entre a casa e a escola não atinge o novo critério da SMED.
Agora, Andréa percorre o trajeto a pé, carregando uma bebê de apenas um mês nos braços, vendo a van passar quase vazia. Ao questionar a pasta sobre o relato do próprio motorista (que estranhou a ausência do menino na lista), recebeu uma resposta que soou como descaso: "o trabalho dele é dirigir a van, não questionar". Segundo informações das monitoras, o custo para o município é por quilômetro rodado, o que torna a exclusão das crianças um desperdício de dinheiro público em um veículo que já está cumprindo a rota.
A Prefeitura de Bento Gonçalves quebrou o silêncio após as denúncias. O argumento do Executivo é estritamente técnico e jurídico, baseado no Decreto nº 12.950, de setembro de 2025.
Para a SMED, não se trata de corte, mas de "otimização da política pública". O município afirma que, para o ano letivo de 2026, analisou 1.746 pedidos, deferindo 1.644. Os 102 indeferimentos ocorreram porque os alunos não atingiram a distância mínima de 1.500 metros (para zona urbana) ou 2 quilômetros (para zona rural), ou estão fora do zoneamento. Para o poder público, a regra é clara: se não fechou 1,5 km, não há vaga, independentemente de o veículo circular com assentos livres.
Sobre o caso das irmãs do bairro São João, a prefeitura contestou, afirmando em nota que "não há registros de situações em que crianças da mesma família, nas mesmas condições, tenham recebido tratamento distinto", citando como exceção apenas os alunos da EMTI Universitário (onde o transporte atende apenas o 6º ano). A administração reforça ainda que as famílias assinaram um Termo de Responsabilidade no ato da matrícula, garantindo "ciência prévia" das regras, e que casos de vulnerabilidade são analisados individualmente.
É profundamente contraditório observar uma administração que, sob o pretexto de rigor técnico, não consegue coordenar a ocupação inteligente de uma van escolar. A educação básica de qualidade exige uma estrutura que permita aos pais trabalharem com a dignidade de saber que seus filhos não estão expostos ao perigo ou ao cansaço extremo por pura teimosia burocrática.
Tratar 900 metros como um critério técnico intransponível para uma mãe com uma recém-nascida no colo, enquanto o dinheiro público paga por vans rodando vazias, é a prova final de uma gestão que governa para planilhas e ignora o ser humano. Enquanto o rigor se aplica aos mais vulneráveis, o trabalhador é obrigado a caminhar na chuva para que o município economize em bom senso.