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Bento projeta 2026 entre o desafio do varejo e a pujança do enoturismo

Com sete feriados prolongados, lideranças empresariais discutem impactos na indústria e no comércio; setor hoteleiro prevê alta de até 15% e aposta no “escapismo” para atrair visitantes.

Marcelo Dargelio
Por: Marcelo Dargelio
05/01/2026 às 15h30 Atualizada em 05/01/2026 às 16h34
Bento projeta 2026 entre o desafio do varejo e a pujança do enoturismo
Turismo deve fazer a economia girar mais fortemente com feriados prolongados - Foto: Reprodução/Especial

O calendário de 2026 reserva uma configuração atípica que promete ditar o ritmo da economia bento-gonçalvense: dos dez feriados nacionais, nove cairão em dias úteis, sendo que, pelo menos, sete deles possibilitarão os tradicionais "feriadões" (emendas de sexta ou segunda-feira).
Para Bento Gonçalves, a Capital do Vinho, um polo que equilibra a força fabril com o protagonismo do turismo, o cenário é de dualidade, exigindo planejamento estratégico para transformar dias de "portas fechadas" em oportunidades de negócios.

Varejo: Recuperação e novos "vilões" do consumo

O presidente da Câmara de Dirigentes Logistas de Bento Gonçalves (CDL-BG), Marcos Carbone, avalia que 2025 foi um ano de recuperação moderada após as cheias de 2024, mas alerta para novos desafios. Para 2026, ele aponta que a inflação e os juros altos, somados ao endividamento das famílias por plataformas de apostas online, as "bets", têm dilapidado o poder de compra.

Endividamento das famí­lias com os jogos online é uma das várias preocupações, revela Marcos Carbone, da CDL-BG

 

"O ano de 2025 foi de recuperação moderada, mas ainda enfrentamos o aumento da inadimplência e o comprometimento da renda com as 'bets' e a inflação. Para 2026, o lojista precisará de criatividade. Bento Gonçalves é uma cidade vocacionada ao turismo e os feriados trazem novos clientes. O desafio é converter esse fluxo em vendas reais", avalia Carbone. Ele destaca ainda que fatores como a Copa do Mundo e as eleições trarão volatilidade ao consumo, exigindo resiliência do setor.

Para o presidente, o impacto inicial dos feriados prolongados no varejo tende a ser negativo devido à redução de dias úteis e à evasão da população local. "Feriados prolongados impactam negativamente o comércio tradicional, pois reduzem os dias de portas abertas e provocam o esvaziamento da cidade pela evasão da população local", explica Carbone. Por outro lado, ele ressalta que a vocação turística de Bento Gonçalves é a chave: "É preciso planejamento para transformar esse fluxo de visitantes em novos negócios".

Indústria: Visão sistêmica e qualificação

Para Daniel Panizzi, presidente do Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves (CIC-BG), o ano de 2025 foi marcado pela desconfiança política e econômica, o que retraiu investimentos na indústria. Contudo, ele vê nos feriados de 2026 uma engrenagem sistêmica. Na visão do presidente, o impacto dos feriados atinge primeiro o comércio e, em um segundo momento, a indústria. Ele destaca que o foco do CIC-BG para 2026 será a eficiência energética e a educação profissional através do projeto Qualifica Bento. Para a gestão 2026/2027, o CIC-BG focará em pilares como qualificação de mão de obra para manter a competitividade, independentemente das pausas no calendário.

Daniel Panizzi destaca a diversidade econômica de Bento Gonçalves, que não espera as coisas acontecerem

 

"Nossa região não espera as coisas acontecerem. Somos empreendedores que buscam resultados mesmo em anos de incertezas como os de eleição e Copa do Mundo. Temos que olhar para Bento Gonçalves como um município impulsionado pelo enoturismo. O calendário de feriados faz a cadeia de hotéis, restaurantes e serviços girar, gerando recursos que, na ponta final, retornam como poder de consumo para o que a indústria produz e o comércio vende", explica Panizzi.

Hotelaria: O desafio da promoção de um destino

Maitê Dall’Onder Michelon, diretora dos Hotéis Dall’Onder, traz uma perspectiva detalhada sobre a realidade do turismo. Após um 2025 dedicado a "apagar" a imagem de um estado sob as águas, ela vê em 2026 o ano com maior número de feriadões da última década. "Bento tem estrutura para dobrar o número de visitantes, mas ainda pecamos na promoção do destino. Muitas vezes o turista de fora conhece apenas o básico", analisa Maitê.

Ela aponta pontos que precisam de evolução para aproveitar melhor os feriados:
Perfil do público: O destino ainda é muito focado em casais; faltam atrações para crianças, área onde Gramado se destaca.
Gastronomia e horários: Há carência de opções gastronômicas abertas no meio da tarde (após as 14h) ou tarde da noite (após as 23h), além de poucas opções de lazer noturno.
Sustentabilidade do negócio: O fluxo ainda é irregular. "Vemos empreendimentos abrindo e fechando toda semana por falta de um fluxo constante que garanta a sustentabilidade", alerta.

Maitê Dall’Onder Michelon destaca que Bento tem estrutura para dobrar o número de visitantes

 

"Os feriados prolongados são excelentes para a nossa rede e para o destino Bento Gonçalves como um todo. Percebemos que o turista atual busca o que chamamos de 'escapismo' — pequenas fugas da rotina em viagens mais curtas e frequentes. 2025 foi um ano de estabilização após os desafios climáticos de 2024, e para 2026, esses sete feriadões ajudarão a preencher as lacunas que grandes eventos como a Copa do Mundo e as eleições costumam deixar na ocupação hoteleira. O cliente hoje reserva mais em cima da hora, e ter Bento Gonçalves consolidada como um destino seguro e atrativo é o nosso maior trunfo", argumenta Maitê.

Projeções de crescimento

Márcia Ferronato projeta um acréscimo de até 15% no fluxo turí­stico para 2026

 

O otimismo no setor de serviços é endossado por Marcia Ferronato, diretora executiva do Sindicato Empresarial de Gastronomia e Hotelaria (SEGH) Região Uva e Vinho. O sindicato projeta um acréscimo de 10% a 15% no fluxo turístico para 2026. "Historicamente, Copa do Mundo e eleições provocam queda no fluxo de lazer. Nesse cenário, o alto número de feriados prolongados servirá como um ponto de equilíbrio", aponta Marcia. Segundo ela, a tendência é que o turismo de negócios se mantenha estável, enquanto o turismo de lazer ganhe fôlego com as reservas de última hora, consolidando a prática das "fugidinhas" ao longo do ano para a Serra Gaúcha.

Com um cenário macroeconômico de juros altos e incertezas políticas, o consenso entre as lideranças de Bento Gonçalves é claro: o ano de 2026 não permitirá amadorismo. O planejamento e a capacidade de inovação serão as ferramentas para transformar o calendário em um aliado do desenvolvimento regional.

 

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