
O calendário de 2026 reserva uma configuração atípica que promete ditar o ritmo da economia bento-gonçalvense: dos dez feriados nacionais, nove cairão em dias úteis, sendo que, pelo menos, sete deles possibilitarão os tradicionais "feriadões" (emendas de sexta ou segunda-feira).
Para Bento Gonçalves, a Capital do Vinho, um polo que equilibra a força fabril com o protagonismo do turismo, o cenário é de dualidade, exigindo planejamento estratégico para transformar dias de "portas fechadas" em oportunidades de negócios.
O presidente da Câmara de Dirigentes Logistas de Bento Gonçalves (CDL-BG), Marcos Carbone, avalia que 2025 foi um ano de recuperação moderada após as cheias de 2024, mas alerta para novos desafios. Para 2026, ele aponta que a inflação e os juros altos, somados ao endividamento das famílias por plataformas de apostas online, as "bets", têm dilapidado o poder de compra.
"O ano de 2025 foi de recuperação moderada, mas ainda enfrentamos o aumento da inadimplência e o comprometimento da renda com as 'bets' e a inflação. Para 2026, o lojista precisará de criatividade. Bento Gonçalves é uma cidade vocacionada ao turismo e os feriados trazem novos clientes. O desafio é converter esse fluxo em vendas reais", avalia Carbone. Ele destaca ainda que fatores como a Copa do Mundo e as eleições trarão volatilidade ao consumo, exigindo resiliência do setor.
Para o presidente, o impacto inicial dos feriados prolongados no varejo tende a ser negativo devido à redução de dias úteis e à evasão da população local. "Feriados prolongados impactam negativamente o comércio tradicional, pois reduzem os dias de portas abertas e provocam o esvaziamento da cidade pela evasão da população local", explica Carbone. Por outro lado, ele ressalta que a vocação turística de Bento Gonçalves é a chave: "É preciso planejamento para transformar esse fluxo de visitantes em novos negócios".
Para Daniel Panizzi, presidente do Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves (CIC-BG), o ano de 2025 foi marcado pela desconfiança política e econômica, o que retraiu investimentos na indústria. Contudo, ele vê nos feriados de 2026 uma engrenagem sistêmica. Na visão do presidente, o impacto dos feriados atinge primeiro o comércio e, em um segundo momento, a indústria. Ele destaca que o foco do CIC-BG para 2026 será a eficiência energética e a educação profissional através do projeto Qualifica Bento. Para a gestão 2026/2027, o CIC-BG focará em pilares como qualificação de mão de obra para manter a competitividade, independentemente das pausas no calendário.
"Nossa região não espera as coisas acontecerem. Somos empreendedores que buscam resultados mesmo em anos de incertezas como os de eleição e Copa do Mundo. Temos que olhar para Bento Gonçalves como um município impulsionado pelo enoturismo. O calendário de feriados faz a cadeia de hotéis, restaurantes e serviços girar, gerando recursos que, na ponta final, retornam como poder de consumo para o que a indústria produz e o comércio vende", explica Panizzi.
Maitê Dall’Onder Michelon, diretora dos Hotéis Dall’Onder, traz uma perspectiva detalhada sobre a realidade do turismo. Após um 2025 dedicado a "apagar" a imagem de um estado sob as águas, ela vê em 2026 o ano com maior número de feriadões da última década. "Bento tem estrutura para dobrar o número de visitantes, mas ainda pecamos na promoção do destino. Muitas vezes o turista de fora conhece apenas o básico", analisa Maitê.
Ela aponta pontos que precisam de evolução para aproveitar melhor os feriados:
Perfil do público: O destino ainda é muito focado em casais; faltam atrações para crianças, área onde Gramado se destaca.
Gastronomia e horários: Há carência de opções gastronômicas abertas no meio da tarde (após as 14h) ou tarde da noite (após as 23h), além de poucas opções de lazer noturno.
Sustentabilidade do negócio: O fluxo ainda é irregular. "Vemos empreendimentos abrindo e fechando toda semana por falta de um fluxo constante que garanta a sustentabilidade", alerta.
"Os feriados prolongados são excelentes para a nossa rede e para o destino Bento Gonçalves como um todo. Percebemos que o turista atual busca o que chamamos de 'escapismo' — pequenas fugas da rotina em viagens mais curtas e frequentes. 2025 foi um ano de estabilização após os desafios climáticos de 2024, e para 2026, esses sete feriadões ajudarão a preencher as lacunas que grandes eventos como a Copa do Mundo e as eleições costumam deixar na ocupação hoteleira. O cliente hoje reserva mais em cima da hora, e ter Bento Gonçalves consolidada como um destino seguro e atrativo é o nosso maior trunfo", argumenta Maitê.
O otimismo no setor de serviços é endossado por Marcia Ferronato, diretora executiva do Sindicato Empresarial de Gastronomia e Hotelaria (SEGH) Região Uva e Vinho. O sindicato projeta um acréscimo de 10% a 15% no fluxo turístico para 2026. "Historicamente, Copa do Mundo e eleições provocam queda no fluxo de lazer. Nesse cenário, o alto número de feriados prolongados servirá como um ponto de equilíbrio", aponta Marcia. Segundo ela, a tendência é que o turismo de negócios se mantenha estável, enquanto o turismo de lazer ganhe fôlego com as reservas de última hora, consolidando a prática das "fugidinhas" ao longo do ano para a Serra Gaúcha.
Com um cenário macroeconômico de juros altos e incertezas políticas, o consenso entre as lideranças de Bento Gonçalves é claro: o ano de 2026 não permitirá amadorismo. O planejamento e a capacidade de inovação serão as ferramentas para transformar o calendário em um aliado do desenvolvimento regional.