
Promoções de financiamento com taxa zero costumam ganhar força no fim do ano no Brasil, especialmente no setor automotivo. O apelo é grande: comprar um carro novo sem pagar juros parece um negócio perfeito. Mas especialistas alertam que, por trás dessa promessa, podem existir custos ocultos, restrições contratuais e decisões pouco vantajosas para o consumidor.
Montadoras e concessionárias usam a estratégia principalmente para girar estoques de modelos do ano vigente e abrir espaço para os lançamentos do próximo ciclo. Datas como Black Friday, Natal e virada do ano intensificam esse movimento, criando um ambiente de urgência que pode levar a compras por impulso.
“A taxa zero elimina o juro explícito, mas não significa que o financiamento é gratuito”, explica Adriane Maria Silocchi, professora de Economia da UCS e gerente de relacionamento do Banrisul.
Segundo Adriane, novembro e dezembro são meses estratégicos para o comércio.
“Tradicionalmente, novembro não é forte em vendas. A Black Friday surge justamente para aquecer o consumo. No setor automotivo, isso significa liberar estoque, melhorar o fluxo de caixa e cumprir metas anuais”, contextualiza.
Além disso, em cenários de juros altos ou inflação, o consumidor tende a adiar grandes compras. As promoções criam a sensação de oportunidade única, estimulando quem estava indeciso a fechar negócio.
O principal perigo está no que não aparece no anúncio. Entre as pegadinhas mais comuns estão:
Muitas vezes, o veículo financiado com taxa zero custa mais caro do que o mesmo modelo comprado à vista ou com juros baixos. A ausência de desconto pode “compensar” o juro que não é cobrado.
Algumas ofertas exigem a contratação de seguros, garantias estendidas ou serviços adicionais, o que encarece o valor final.
Tarifa de abertura de crédito, seguro prestamista e outras cobranças podem passar despercebidas e elevar significativamente o custo da operação.
Financiamentos com taxa zero geralmente têm prazo reduzido, o que resulta em parcelas mais elevadas e maior risco de desequilíbrio financeiro.
“A sensação de urgência e o discurso de estoque limitado podem levar o consumidor a decisões precipitadas”, alerta Adriane.
O período é marcado por:
antecipação de compras
busca intensa por promoções
maior uso do digital, mas com retorno à loja física
preocupação com endividamento e equilíbrio financeiro
Essa combinação favorece ofertas agressivas, mas também exige mais atenção do comprador.
Especialistas recomendam alguns cuidados essenciais:
Compare o valor do veículo em diferentes concessionárias e plataformas antes de fechar negócio.
Analise cláusulas sobre seguros, taxas e serviços obrigatórios.
Use simuladores para comparar:
taxa zero
financiamento tradicional com juros baixos
compra à vista com desconto
Não olhe apenas a parcela mensal. O que importa é quanto você vai pagar no fim do contrato.
Consórcio, maior entrada ou financiamento parcial podem ser alternativas mais econômicas, dependendo do cenário.
O financiamento com taxa zero pode, sim, ser vantajoso em alguns casos, especialmente quando o preço do veículo é competitivo e não há custos adicionais escondidos. O problema é acreditar que “zero juros” significa automaticamente o melhor negócio.
“O consumidor precisa comparar, planejar e desconfiar de ofertas boas demais”, resume Adriane Maria Silocchi.
No fim das contas, a melhor compra não é aquela com o menor juro anunciado — mas a que cabe no orçamento, tem transparência e faz sentido no longo prazo.