Quarta, 11 de Fevereiro de 2026
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Leões contra Brasília e o Piratini, gatinhos no quintal de casa

Coluna destaca como a maioria dos vereadores de Bento decidiu criticar ferozmente os governos federal e estadual e esqueceram da cidade onde vivem.

Marcelo Dargelio
Por: Marcelo Dargelio
27/12/2025 às 22h47 Atualizada em 01/01/2026 às 10h21
Leões contra Brasília e o Piratini, gatinhos no quintal de casa
Para a maioria dos vereadores, estamos numa cidade onde a população tem que se satisfazer com o que tem - Foto: Reprodução/Especial

O ano legislativo de 2025 terminou e a Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves encontrou um eixo de atuação confortável e previsível: moções de repúdio. Muitas moções, aliás. Em série. Quase sempre direcionadas a governos distantes, como o do governador Eduardo Leite e o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alvos preferenciais de indignação parlamentar. Contra Brasília e o Piratini, os discursos eram firmes, inflamados, quase heroicos. Um Legislativo em modo leão.

A pergunta que ficou ecoando nos corredores — e fora deles — foi simples e incômoda: e o prefeito Diogo Siqueira? E Bento Gonçalves? O chefe do Executivo Municipal, que governa a cidade onde os vereadores vivem, circulam e pedem votos, parece ter se tornado uma figura quase invisível aos olhos críticos da maioria dos parlamentares. No quintal onde pisam, o rugido deu lugar a miados cautelosos.

Não se trata de defender governos estaduais ou federais. A crítica é legítima e necessária em qualquer democracia. O problema é a assimetria (grande diferença; disparidade, discrepância para quem não entende o português mais rebuscado). Atacar políticas nacionais rende aplauso fácil, alinhamento ideológico e engajamento nas redes. Fiscalizar o Executivo local, porém, exige enfrentamento real, desgaste político e, sobretudo, independência.

Com raras exceções — dois ou três vereadores —, que ao menos ensaiaram cobranças pontuais, a maioria preferiu o conforto da ilha da fantasia. Um lugar onde, aparentemente, não falta nada em Bento Gonçalves. Onde todas as carências da população, que eles dizem representar, estariam resolvidas. Onde saúde, mobilidade, habitação, planejamento urbano e prioridades orçamentárias caminham sem sobressaltos. Crianças com alguma deficiência, só para dar um exemplo, foram plenamente atendidas nas escolas e não precisaram ficar em casa por falta de monitores. O Hospital Público finalmente ficou pronto e está funcionando a pleno, atendendo todas as carências da nossa comunidade.  

Se tudo está tão bem, cabe então a pergunta que incomoda qualquer democrata: para que servem os vereadores? Para fiscalizar governos distantes? Para bater palmas ao prefeito? Para distribuir moções, portarias de louvor e homenagens em série?

A nova lógica política — a de que “todos estão caminhando para o mesmo lado” — pode até soar harmoniosa no discurso, mas tem efeitos práticos claros: esvazia o papel do Legislativo. Sem conflito institucional, sem cobrança sistemática e sem contraponto, administrar a cidade se torna confortável. Legislar, então, vira uma mera formalidade.

As questões mais sérias do município foram sendo empurradas para debaixo do tapete. Não desapareceram; apenas deixaram de ser prioridade. E o roteiro aponta que 2026 tem tudo para repetir o mesmo enredo

Se a Câmara quiser recuperar relevância, talvez precise lembrar que fiscalizar o poder próximo é mais difícil — e mais necessário — do que atacar o distante. Caso contrário, seguirá confortável no papel de figurante, aplaudindo o palco enquanto a cidade assiste, do lado de fora, a um espetáculo cada vez menos convincente.

Nesse reino encantado, surge ainda um símbolo eloquente: o novo palácio do Legislativo, com custo superior a R$ 30 milhões, onde os nobres edis devem se acomodar a partir de maio de 2026. O mesmo prédio que, em tempos eleitorais, chegou a ser prometido como uma super escola infantil. A promessa virou pó; o concreto, ou melhor, o palácio, realidade.

Para equilibrar a narrativa, veio o agrado ao povo que representam: uma praça ao lado do palácio, destinada às crianças, às famílias. Um gesto simpático, quase pedagógico. Talvez a obra pudesse se chamar “A Praça é Nossa”, em homenagem ao humor involuntário de um Legislativo onde a piada já vem pronta — e o riso, infelizmente, é mais irônico do que alegre.

 

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JoséHá 1 mês BentoEstas ultimas administracōes municipais foram totalmente deletérias para a cidade. A Bento de hoje não é uma sombra do que ja foi. É hoje impessoal, sem identidade, extremamente barulhenta e urbanamente caótica parecendo uma cidade industrial do ABC paulista. Os mandatários não tem idéias, e quando as tem são tapa furos ruins. A representação na prefeitura e câmera são péssimos refletindo a baixa qualidade cultural e educational da população. Virou mais um puxadinho de Brasil, a régua tomboy.
JorgeHá 1 mês BGSó tendo zero de referências para achar Bento um local sem problemas. Qualidade de Vida? Qual ganhando a miséria que é paga pelas empresas daqui, onde até trabalhador tem que ser "importado" ja que os daqui por dois mil ficam em casa... A cidade não oferece lazer algum, nem pra caminhar da mais de táo horríveis as calçadas. É trabalhar, dormir e quando der comer uma pizza, por isso que tem tanta farmácia, pra nao faltar o Rivotril, e tambem não sei pra que tanto prédio. Tem plano diretor aqui??
Antônio FrizzoHá 1 mês BGMarcelo, é “TÁ TUDO DOMINADO” que se diz? …interessante é que se autointitulam “representantes do povo”, mas ignoram, solenemente, esse mesmo povo que, para eles, são de “suprema importância” nos meses pré-eleitorais. Algum deles comentou ou fez algo para tentar resolver os problemas enormes que a população vive? E abordo apenas um, que recrudesceu a olhos vistos no centro da cidade: o absurdo SISTEMA SEMAFÓRICO que um “jênio” instalou na frente da igreja de Santo Antônio. Inacreditável!
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