O prefeito de Bento Gonçalves, Diogo Siqueira, vive hoje um dos momentos mais delicados de sua trajetória política. Desde que assumiu a prefeitura com uma expressiva votação, seu nome passou a circular como aposta natural para disputar uma vaga de deputado federal em 2026. Carismático, ágil nas redes sociais e catapultado à condição de “celebridade política do Instagram” após as enchentes de 2024, Siqueira parecia ter o caminho livre para a Câmara dos Deputados. Mas, no tabuleiro da política bento-gonçalvense, os movimentos nem sempre seguem a lógica da popularidade.
Até julho deste ano, o prefeito mantinha o ritmo acelerado de articulações. Sua saída do PSDB e a ida para o PL eram dadas como certas. Conversas e fotos com o pré-candidato a governador, o deputado federal tenente-coronel Zucco, já eram divulgadas sem constrangimento. Mas, vale dizer, também, que, em nenhum momento o prefeito divulgou abertamente que seria candidato, mas o desejo era latente em suas ações.
Porém, a realidade se impôs. A eventual candidatura de Siqueira colide frontalmente com os planos de Guilherme Pasin, deputado estadual e figura central do Progressistas em Bento Gonçalves. Foi Pasin quem abriu as portas da política para Siqueira em Bento, e a ascensão meteórica do pupilo ameaça ofuscar os planos do padrinho.
Os caciques do PP, que concentram o poder e os recursos eleitorais na Capital do Vinho, fizeram as contas: não há caixa para bancar duas campanhas robustas — a de Pasin e a de Diogo. O recado, ainda que nunca verbalizado de forma oficial, parece ter sido transmitido. O entusiasmo de Siqueira nitidamente arrefeceu, inclusive nas redes sociais.
A reunião realizada esta semana com Onyx Lorenzoni reforçou a leitura de que não há espaço para todos. Derrotado fragorosamente por Eduardo Leite na eleição ao governo do Estado, Onyx agora busca um retorno à Câmara Federal. E, para isso, costura apoios com o PP. O nome de Pasin surge como parceiro ideal de dobradinha, isolando o prefeito de Bento Gonçalves.
A movimentação sinaliza que Siqueira terá de aguardar sua vez. Rebeldia não parece estar em seu DNA político. Além disso, lançar-se candidato à revelia dos caciques seria uma aposta de alto risco: faltariam recursos e articulação, elementos essenciais para qualquer candidatura competitiva. Afinal, em Bento Gonçalves, o grupo do Progressistas é especialista em campanhas eleitorais.
Resta ao prefeito transformar a frustração em estratégia. Em vez de disputar uma vaga federal em 2026, Siqueira pode mirar mais alto a longo prazo. Ao focar em entregar uma administração de excelência em Bento Gonçalves, ele reforça sua imagem de gestor eficiente e popular. Com três anos de mandato pela frente, tem condições de projetar a cidade em outro patamar e consolidar sua marca.
Assim, em 2030, Diogo poderá apresentar-se ao eleitorado gaúcho não apenas como o prefeito carismático que brilhou no Instagram, mas como o líder que provou, na prática, capacidade de governar e transformar. O tempo político, por vezes cruel, pode ser também pedagógico.