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Sensação nas Olimpíadas, skate luta pela desmarginalização e busca espaços e incentivo

Skatistas de Bento esperam que, com a visibilidade alcançada, sobretudo por meio dos medalhistas olímpicos Kelvin Hoefler, Rayssa Leal, a Fadinha, e Pedro Barros, o esporte consiga demonstrar a sua verdadeira essência de transformação social.

08/08/2021 às 22h54 Atualizada em 24/09/2021 às 00h11
Por: Kevin Sganzerla Fonte: NB Notícias
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Foto: Bruno Marconi
Foto: Bruno Marconi

O skate fez a sua estreia nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e já conquistou uma legião de fãs e o coração do brasileiro com as conquistas das medalhas de prata dos atletas Kelvin Hoefler, Rayssa Leal, a Fadinha do Skate, e Pedro Barros. Ao se tornar olímpico e conquistando ampla visibilidade, os apaixonados pela modalidade esperam que esse episódio possa se tornar um divisor de águas na busca pela desmarginalização e pela mudança de visão para com o esporte. 

O skate se tornou um dos esportes individuais olímpicos mais comunitários das Olimpíadas. A cada acerto de manobra, todos os atletas, independente do país, vibravam. As provas das Olimpíadas demonstraram, desta forma, a essência do esporte. “Estamos fazendo do esporte um lugar melhor, um mundo melhor. É disso que se trata. O skate é uma comunidade, é um estilo de vida. Vai muito além de um esporte”, afirmou o medalhista de prata Pedro Barros, ao GloboEsporte.com.

Pedro Barros foi prata no Skate Park em Tóquio / Foto: Gaspár Nóbrega/COB

Com o esporte se tornando olímpico, vislumbra-se a esperança de crescimento do esporte no país. É o que prevê o skatista amador Dávide Júnior de Paula Scussel, de 27 anos, o qual participou da realização de diversos eventos no município, tanto de cunho esportivo como também beneficente:

“A coisa mais importante do skate ter se tornado olímpico é a mudança de visão e a desmarginalização do esporte. Os pontos positivos virão através de uma nova estrutura para a prática do skate. Literalmente infraestrutura era o que faltava, skate sempre foi carente disso. E o que espero é que junto da infraestrutura venham projetos que usem o skate como uma ferramenta de transformação, introduzindo cada vez mais as crianças e jovens”, analisa. 

Marginalização do skate ainda é significativa

A realidade da modalidade no Brasil, no entanto, é dura. Em Bento Gonçalves, skatistas lidam com o preconceito diariamente, e contam com poucos espaços e uma infraestrutura limitada para a prática esportiva. “Sempre houve e sempre vai existir o preconceito. O skate é aberto, ele aceita todos. Na grande maioria são jovens de famílias desestruturadas, de baixa renda e, numa cidade em que há muito preconceito como Bento, sempre foi sentida na pele, ao entrar em um supermercado, shopping, ao passar pelas ruas à noite”, explica Dávide.  

Dávide já alcançou o 3º lugar no Circuito Gaúcho pela categoria amador / Foto: André Scarmin

A mudança de visão para com a modalidade também é uma das consequências que skatistas esperam que ocorra, bem como maior visibilidade e conquista de espaço. “É uma chance de o skate instigar o restante da sociedade a ver que são muitos os valores que compõem essa cultura, de muito respeito, coragem, companheirismo e, acima de tudo, muita persistência e expressão”, comenta o skatista bento-gonçalvense Bruno Marconi, que convive com o skate desde criança. 

De acordo com Dávide, a visibilidade que a modalidade conquistou por meio das Olimpíadas pode auxiliar na busca por incentivo por parte do poder público, com a construção de espaços apropriados, eventos e projetos que visam utilizar o skate como uma ferramenta de transformação social.

Bruno Marconi convive com o skate desde criança/Foto: Bruno Marconi/Arquivo Pessoal

Para Bruno, o preconceito que ainda se faz presente se deve muito ao fato de os apaixonados da modalidade contarem com poucos locais para prática. “Esse preconceito ainda persiste muitas vezes por falta de um lugar próprio para a prática do esporte. O skatista se propõem a andar em locais públicos, na rua, não que isso seja algo ruim, pois grande parte da cultura do mesmo evoluiu pelas ruas, e isso sempre vai continuar, mas ao fazer isso, entra-se em conflito com o restante da sociedade que ainda acredita que o skate depreda as propriedades”, relata. 

Dávide destaca, sobretudo, que é necessário diferenciar pessoas de má fé com skatistas. “Existem skatistas que estão envolvidos em diversas situações que não trariam orgulho pra quem anda de skate, mas também tem pessoas assim dentro do futebol, da música, da arte, da política, da polícia, não dá para generalizar. Esperamos que isso seja entendido: não é o skate ou os skatistas que são ruins, são as pessoas”, pondera.

O incentivo proporcionado pelas conquistas das medalhas de prata nas Olimpíadas

A medalha de prata obtida pela “Fadinha do Skate”, a Rayssa Leal, no Skate Street nas Olimpíadas de Tóquio 2020, conquistou o coração do brasileiro. Apesar de ter somente 13 anos, ela se tornou um ícone da modalidade e um espelho para jovens atletas que almejam seguir os mesmos passos. 

Brenda Ricardo Rodrigues, de 21 anos, começou a andar de skate aos 12 anos de idade. A skatista já participou de alguns campeonatos, porém apenas observando e trocando experiências com outros atletas. Apaixonada pelo esporte, ela almeja que, com a conquista da “Fadinha do Skate”, mais atletas possam conhecer a modalidade e, assim como ela, fazer parte da comunidade que cerca o esporte. “Acredito que a conquista da Rayssa vai fazer com que mais meninas andem de skate. Como uma menina de Caxias comentou para mim certa vez: ‘futuramente pode ser eu’, e faço dela as minhas palavras. Que sirva de incentivo para todas”, afirma. 

Foto: Brenda Ricardo Rodrigues/Arquivo Pessoal

O impacto das Olimpíadas na modalidade já é uma realidade. Conforme reportagem da revista Exame, na semana posterior à conquista das medalhas de prata de Kelvin Hoefler e Rayssa Leal no Skate Street, plataformas de vendas registraram recorde de vendas de skates. A varejista Centauros, por exemplo, registrou um crescimento superior a 400% nas buscas no site por produtos relacionados ao skate. 

“O aumento de público simpatizante e praticante é algo que não vamos ter como mensurar, mas vai representar muito no momento requerer espaços para a prática. É possível ver que além da aceitação dos pais agora vemos que as próprias pessoas acreditam ser possível andar de skate. Muitos achavam algo impossível, ou tinham medo de cair e, ao assistir o campeonato, perceberam que cair faz parte do skate, é algo impossível de não acontecer”, comenta Dávide. 

O skate em Bento Gonçalves

A cidade de Bento Gonçalves conta com apenas dois espaços exclusivos para a prática do skate, a Praça Centenário e a pista no Ouro Verde. No entanto, em ambos, há significativa precariedade. 

A pista da Praça Centenário, conforme o skatista Dávide, tem mais de 20 anos e está defasada para os dias de hoje, além de não se encontrar em um estado propício para a prática. Além disso, a falta de segurança e policiamento também é um dos principais problemas, uma vez que a pista é frequentemente utilizada para práticas ilícitas. 

A pista do Ouro Verde também necessitaria de uma ampla reforma. “A pista foi feita por empresas não especializadas em construções de skateparks, tornando aquilo um erro grotesco. Esperamos uma atenção desta nova gestão nestes aspectos, afinal verbas anuais para o esporte têm, mas tem que saber gerir, dá para fazer e fazer bem feito”, opina o skatista. 

De acordo com a skatista bento-gonçalvense Brenda Ricardo Rodrigues, as últimas reformas realizadas na pista da Praça Centenário foram realizadas pelos próprios skatistas que a utilizam. “Vejo os skatistas da nossa cidade como guerreiros, porque além de passarem por bastante preconceito, não se tem lugares bons pra fazer a prática. A pista da Centenário precisa de reforma há muito tempo, muitas vezes os próprios skatistas fazem algum movimento para poder arrumá-la, mas acredito que o melhor seria um local novo, com uma construção bem pensada”, comenta. 

Pista da Praça Centenário é um dos locais para a prática do skate em Bento Gonçalves / Foto: Kévin Sganzerla

Apesar do aumento de praticantes da modalidade, e que tende a crescer ainda mais com o advento da estreia do skate em Jogos Olímpicos, a infraestrutura para a prática continua a mesma, conforme relata Bruno Marconi: “O número de skatistas na cidade vive aumentando, com pessoas de diferentes idades e níveis de habilidade, o que torna a cena propícia à evolução, porque todo mundo pode se ajudar, mas já tem anos que muita gente já tentou entrar em contato buscando a adequação da cidade à pratica do esporte, com reformas, projetos, ideias, necessidades e poucas dessas foram cumpridas ou sequer respondidas”, pondera Bruno, que complementa:

“A nossa pista da cidade carece de uma reforma há anos, e toda manutenção foi feita pela própria galera que anda e que está inserida nessa cultura. Então, por muita evolução que já aconteceu, muitas carências permanecem sem muita atenção”, afirma. 

Prefeitura pretende reformar pista na Praça Centenário

Conforme a Secretaria Municipal de Esportes, o poder público recebeu as demandas e já está estudando formas para desenvolver a modalidade e realizar melhorias nos espaços para a prática do skate. Desde então, segundo a pasta, foram iniciados os estudos no IPURB para desenvolver o melhor jeito de fazer as melhorias. Além disso, a secretaria estuda formas de estar incentivando cada vez mais a prática do esporte.

As melhorias já estão em fase de projetos e o poder público espera, em breve, colocar em prática as reformas. No entanto, segundo a secretaria, tudo depende do conhecimento de custos. A secretaria e o IPURB já se reuniram e também já foram realizadas visitas no local para a verificação da situação da estrutura da pista. O projeto já está pronto e na fase de adaptação técnica. 

Inserção do skate nas escolas

Dávide, que pratica o esporte há 15 anos, é ex-aluno da Escola Estadual Bento Gonçalves, que se localiza ao lado da Praça Centenário. Na época em que estudava no ensino fundamental, se deslocava para a escola de skate. “Todos os dias alguém da escola me xingava por andar de skate. Eu não conseguia entender porque o futebol, o basquete, o vôlei podiam e o skate não”, relata.

Foto: RAFAEL WEBBER

Ele comenta que, em muitas ocasiões, sua mãe foi chamada à escola por conta deste “problema”. No entanto, após sair da instituição, algo inesperado aconteceu com Dávide. “Anos após ter saído fui chamado pela própria escola para julgar um campeonato de skate que aconteceu dentro do mesmo ginásio onde eu era proibido de andar. Isso para mim foi uma vitória. Só eu sei o quanto eu briguei para colocar o skate nos lugares que eu gosto, afinal a escola é lugar para aprender e o skate ensina muito”, destaca o skatista.

A escola Bento é um dos exemplos que é possível inserir o skate nas instituições de ensino como uma ferramenta de aprendizado, sobretudo. Na época, segundo Dávide, haviam cerca de 15 skatistas na escola e os professores abraçaram a modalidade. Com recursos próprios, construíram caixotes e corrimãos para os adolescentes andarem de skate na educação física e nos recreios. 

A mesma opinião é ressaltada por outros skatistas, a exemplo de William Tauan de Azevedo, de 17 anos, o qual pratica a modalidade desde os 10 anos de idade. “É possível sim o skate ser incluído nas escolas. Seria uma forma dos alunos conhecerem o esporte e a cultura do skate desde o colégio”, opina. “Seria perfeito incluir a modalidade do skate nas escolas, até como uma forma de motivação para ter notas boas, como passa no filme "uma skatista radical", no qual todas as crianças do projeto tinham que tirar notas boas na escola, caso contrário não podiam andar de skate”, complementa Brenda. 

Acima de tudo, o skate pode ser utilizado como uma ferramenta de transformação social, seja ele inserido em escolas, eventos esportivos ou projetos sociais que possam surgir futuramente no município. “Eu acredito que esse seja o caminho certo para o skate, ele junto ao ensino, usá-lo como uma ferramenta de transformação”, conclui Dávide. 

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