
Produtores rurais voltaram a relatar a morte de abelhas em apiários de Bento Gonçalves nesta semana. Os casos ocorreram entre terça-feira (22) e sexta-feira (25) no Caminhos de Pedra, distrito de São Pedro, e também no Vale dos Vinhedos. No ano passado, entre os dias 25 e 30 de setembro, a mortandade também tinha sido registrada pelos apicultores.
Segundo os apicultores ouvidos, milhares de abelhas foram encontradas mortas nas proximidades das colmeias. Os produtores pediram para não serem identificados por receio de represálias. A suspeita levantada por eles é de que a mortandade possa estar relacionada à aplicação de agrotóxicos em áreas próximas. Até o momento, porém, não foi apresentado laudo que determine a causa das mortes ou identifique eventual produto responsável.
Nesta semana, a Associação Ativista Ecológica (AAECO) também recebeu a denúncia de um morador do Vale dos Vinhedos sobre a morte de abelhas em sua propriedade. Segundo a entidade, o produtor afirmou que episódios semelhantes ocorrem todos os anos e reclamou da falta de uma solução para o problema. “Ninguém faz nada, já liguei para todas as autoridades e ninguém resolve o problema”, relatou o morador à associação.
O secretário da AAECO, Gilnei Rigotto, afirma que determinar a origem de uma eventual contaminação é uma das principais dificuldades para investigar episódios desse tipo. Segundo ele, seria necessária uma análise técnica capaz de determinar não apenas a possível presença de substâncias nas abelhas ou no ambiente, mas também estabelecer a origem da contaminação.
Rigotto defende uma atuação conjunta de instituições como Embrapa, Emater, Vigilância Sanitária, Secretaria Municipal do Meio Ambiente e sindicatos rurais.
A AAECO pretende levar o assunto ao Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema) e solicitar a articulação dos órgãos envolvidos.
Entre as hipóteses levantadas pelos produtores está a exposição das abelhas a inseticidas. Somente análises técnicas, entretanto, poderão determinar se houve intoxicação e qual substância estaria envolvida.
Um dos ingredientes ativos que vem sendo acompanhado pelos órgãos ambientais brasileiros é o fipronil.
O produto não está simplesmente proibido no Brasil. O ingrediente está em processo de reavaliação ambiental pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Em 2026, o órgão informou ter identificado indícios de risco para abelhas e outros insetos polinizadores na maioria dos usos agrícolas avaliados.
A pulverização foliar de produtos à base de fipronil permanece suspensa. Segundo o Ibama, uma das preocupações é justamente a deriva da pulverização, capaz de alcançar polinizadores fora da área de cultivo.
Além das perdas dos próprios apicultores, episódios de mortandade de abelhas despertam preocupação pelo papel desses insetos na polinização.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de 75% dos principais tipos de culturas alimentares do mundo dependem, pelo menos parcialmente, de polinizadores.
Isso não significa que 75% de toda a quantidade de alimentos produzida no mundo dependa diretamente deles. A FAO estima que aproximadamente 35% do volume da produção agrícola mundial seja afetado por abelhas e outros animais polinizadores.
No caso registrado em Bento Gonçalves, ainda será necessário investigar a causa da mortandade relatada pelos produtores.
A identificação de eventual substância e de sua origem dependerá de coleta adequada de amostras, análises e investigação dos órgãos responsáveis.