
Uma arte trazida pelos imigrantes italianos à Serra Gaúcha ganha registro permanente neste sábado (15). A historiadora e escritora Cristine Tedesco lança, no Museu do Imigrante, em Bento Gonçalves, o livro "O trigo é meu cristal — Memórias do artesanato em dressa", acompanhado de um documentário de mesmo nome.
A dressa é a trança feita com palha de trigo, técnica trazida pelos imigrantes e usada na confecção de chapéus, bolsas e outros objetos. Reconhecida como patrimônio imaterial de Bento Gonçalves, é um saber passado de geração em geração — e que corre risco de se perder.
A frase que virou título
O nome do livro nasceu de um depoimento. "Quando eu ouvi a dona Lurdes falar que o trigo era o cristal da vida dela, por ser ao mesmo tempo dobrável e resistente, eu pensei: é isso", conta a autora.
O trabalho começou em 2024, quando Cristine entrevistou artesãos para embasar o pedido de reconhecimento da dressa como patrimônio imaterial do município. O objetivo foi alcançado, mas ela sentiu que faltava algo. "Fiz aquele trabalho, mas fiquei com a sensação de que precisava também deixar um legado com essa pesquisa", diz. Com o projeto aprovado em edital da Política Nacional Aldir Blanc, ampliou as entrevistas.
O livro reúne 15 depoimentos, de moradores de Bento Gonçalves, Pinto Bandeira, Protásio Alves, Farroupilha e Paraí. Estará disponível em versão impressa, e-book e audiolivro.
Um documentário para ensinar
O filme acompanha uma família de Pinto Bandeira que está na terceira geração de mulheres que fazem dressa — e que realiza o ciclo completo, do plantio do trigo à venda dos produtos.
A escolha de registrar o passo a passo em vídeo tem uma razão prática. "Percebi que as pessoas fazem uma oficina e, depois de um tempo, esquecem o que aprenderam. Então decidi deixar o passo a passo eternizado em vídeo", explica a autora. Produzido pela Lactato Movie, o documentário ficará disponível no YouTube após a estreia.
Levando a tradição aos jovens
O projeto inclui ainda um jogo didático, elaborado pela educadora e bibliotecária Eunice Pigozzo, que será aplicado em setembro no IFRS e na Praça CEU. "Incluímos alunos porque queremos que a dressa seja mais conhecida entre o público jovem", afirma Cristine, observando que muitos veem os avós fazendo, mas não dão importância ao saber.
Para ela, o reconhecimento como patrimônio imaterial tinha um objetivo maior: "provocar o debate sobre políticas públicas que contribuam com a preservação dessa arte".
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