Sexta, 31 de Julho de 2026
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Prisão de tatuador expõe série de relatos de violência contra mulheres no RS

Polícia registra 19 ocorrências envolvendo Vinicius Roig em dois anos; Ministério Público identificou mais de 20 possíveis vítimas, enquanto suspeita de estupro é investigada separadamente.

Marcelo Dargelio
Por: Marcelo Dargelio
31/07/2026 às 09h40
Prisão de tatuador expõe série de relatos de violência contra mulheres no RS
Vinícius Roig foi preso nesta quinta-feira, 30, em Balneário Camboriú - Foto: Reprodução

prisão preventiva do tatuador, corretor de imóveis e músico Vinicius Roig, de 47 anos, trouxe para o centro de uma investigação policial uma sequência de relatos de violência física, psicológica e sexual atribuídos a ele por mulheres no Rio Grande do Sul. Roig foi localizado na quinta-feira, 30 de julho, em um apartamento alugado por aplicativo em Balneário Camboriú, no litoral de Santa Catarina, e não resistiu à prisão.

O mandado foi cumprido no contexto de uma apuração aberta pela Polícia Civil em Torres, no Litoral Norte gaúcho, por suspeita de estupro contra a ex-companheira mais recente do investigado. A prisão é cautelar e não representa condenação. Roig deve ser considerado inocente até uma eventual decisão judicial definitiva.

A dimensão do caso, porém, vai além do inquérito por violência sexual. Segundo informações da Polícia Civil, foram encontradas 19 ocorrências nas quais Roig aparece como suspeito nos últimos dois anos. Os registros foram feitos em Torres, Novo Hamburgo, Sapucaia do Sul e Cachoeirinha.

Um levantamento do Ministério Público do Rio Grande do Sul identificou, neste primeiro momento, mais de 20 possíveis vítimas. Os relatos mencionam agressões físicas, ameaças, humilhações, perseguição, violência psicológica e violência sexual. Parte das mulheres procurou as autoridades apenas recentemente, embora alguns dos episódios narrados tenham ocorrido há anos ou décadas.

Relato público desencadeou mobilização

A mobilização começou depois que a professora Michele Duarte, ex-companheira do investigado, tornou público o relato de que teria sofrido violência durante o relacionamento. Ela também registrou ocorrência policial e obteve medida protetiva.

Segundo Michele, o relacionamento começou com demonstrações de gentileza e atenção, mas teria evoluído rapidamente para agressões. A professora afirma que ficou com hematomas e ferimentos no rosto e no corpo.

O relato ganhou projeção depois de ser compartilhado por Juliana Roig, irmã do próprio investigado. Juliana declarou acreditar na professora e ajudou a divulgar uma página nas redes sociais chamada “Verdade Seja Dita”. A partir daí, outras mulheres passaram a relatar experiências envolvendo o mesmo homem.

O movimento nas redes também levou algumas das possíveis vítimas a buscar atendimento institucional. Em Porto Alegre, mulheres foram recebidas pelo Espaço Bem-Me-Quer, serviço do Ministério Público voltado ao acolhimento e à orientação de vítimas. O órgão afirma que esse atendimento pode incluir encaminhamentos para assistência psicológica, social e jurídica. O MPRS já desenvolvia ações de fortalecimento da rede local, como uma capacitação sobre enfrentamento à violência contra a mulher realizada em Torres em fevereiro.

Três denúncias já foram apresentadas pelo Ministério Público

Antes da repercussão recente, o Ministério Público já havia apresentado três denúncias criminais contra Roig por fatos ocorridos em Torres e Sapucaia do Sul.

A primeira, protocolada em 1º de setembro de 2025, refere-se a um episódio ocorrido em julho daquele ano. Segundo a acusação, o investigado teria ido ao prédio onde uma mulher morava, feito ameaças de morte e arremessado pedras contra as vidraças.

A segunda denúncia, apresentada em 1º de abril de 2026, trata de violência psicológica e sucessivas humilhações supostamente impostas a uma vítima. A terceira, de 9 de junho, envolve descumprimento de medidas protetivas, perseguição e outro episódio de violência psicológica.

Essas três denúncias não devem ser confundidas com a suspeita de estupro que motivou a investigação atualmente conduzida em Torres. Conforme as informações disponíveis, o possível crime sexual permanece sob apuração da Polícia Civil. As ações apresentadas anteriormente pelo Ministério Público aguardavam análise do Judiciário quando a prisão foi divulgada. Os processos correm sob segredo de Justiça.

O promotor Márcio Roberto Silva de Carvalho afirmou que o órgão já atuava desde que tomou conhecimento dos primeiros fatos. Para o Ministério Público, a prisão preventiva tornou-se necessária diante da gravidade das acusações e da necessidade de proteger as mulheres envolvidas e evitar possíveis novos episódios.

Pelo Código de Processo Penal, a prisão preventiva é uma medida excepcional, utilizada quando a liberdade do investigado representa risco concreto à ordem pública, à produção das provas, à aplicação da lei ou à segurança das pessoas envolvidas. A própria legislação estabelece que ela não pode servir como antecipação de uma pena. 

Investigado contesta os relatos

Antes da prisão, Roig publicou uma manifestação nas redes sociais na qual reconheceu que havia acontecimentos a serem tratados com seriedade, mas sustentou que parte das informações divulgadas não correspondia à realidade ou teria sido retirada de contexto.

Ele também registrou ocorrência por calúnia contra mulheres responsáveis pelas publicações e recorreu à Justiça para tentar retirar a página “Verdade Seja Dita” do ar. O pedido liminar foi negado. Na decisão, a magistrada considerou que as manifestações possuíam suporte em fatos concretos, conforme a apuração divulgada pelo g1.

Até a publicação da reportagem que revelou a prisão, a defesa formal de Roig ainda não havia apresentado posicionamento ao veículo. A contestação publicada pelo próprio investigado permanece como a versão disponível. O espaço deve continuar aberto para manifestação de seus advogados.

Investigação procura reunir provas

A Polícia Civil trabalha agora na coleta de documentos, perícias e depoimentos. O delegado Marcos Veloso, responsável pela apuração em Torres, ressaltou a necessidade de acolher as mulheres durante as oitivas, evitando que a busca por informações provoque uma nova experiência de violência.

O caso ainda pode resultar na abertura de outros inquéritos, dependendo da natureza, do local e da época de cada episódio relatado. Caberá à polícia verificar individualmente os fatos e reunir provas. Depois disso, o Ministério Público decidirá se apresenta novas denúncias, enquanto a Justiça avaliará as acusações respeitando o direito de defesa.

Para as mulheres que tornaram os relatos públicos, a mobilização tem como objetivo impedir novos episódios e obter uma resposta das instituições. Para a investigação, o desafio será transformar uma sucessão de depoimentos — alguns sobre fatos antigos — em apurações individualizadas, preservando simultaneamente as vítimas, o sigilo processual e as garantias legais do investigado.

Como pedir ajuda: mulheres em situação de violência podem ligar gratuitamente para o Ligue 180, utilizar o WhatsApp (61) 9610-0180 ou escrever para [email protected]. Em situação de emergência, a orientação oficial é acionar a Polícia Militar pelo 190. O serviço fornece orientações, localiza unidades especializadas e encaminha denúncias aos órgãos competentes. 

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