
A expansão das lavouras de soja no Rio Grande do Sul — cuja área plantada dobrou nos pampas nas últimas duas décadas, alcançando 6,6 milhões de hectares — provocou um efeito colateral severo sobre a vitivinicultura gaúcha. Herbicidas hormonais aplicados nas plantações de grãos estão sendo transportados pelo vento e atingindo parreirais localizados a quilômetros de distância.
O diagnóstico alarmante faz parte do estudo "Impactos econômicos dos herbicidas hormonais na viticultura do Rio Grande do Sul", elaborado pela Fundação Empresa-Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Feeng/UFRGS) a pedido do Consevitis-RS, com lançamento oficial agendado para 6 de agosto.
A pesquisa analisou cerca de 400 casos confirmados de contaminação entre 2018 e 2024 em 45 municípios. No período, aproximadamente 700 hectares de videiras deixaram de ser cultivados devido aos danos acumulados, gerando um prejuízo financeiro estimado em R$ 350 milhões. Ao todo, 4 mil hectares de vinhedos já sofreram estragos, o que representa quase 10% de toda a área de videiras do estado.
Apesar das normas estaduais vigentes — que exigem notificação prévia de aplicação e proíbem a pulverização aérea ou em dias de vento forte —, produtores relatam que as restrições não foram suficientes para conter a deriva. A situação é especialmente crítica na Campanha Gaúcha, segunda maior região produtora de vinhos do país, onde o relevo plano favorece tanto o cultivo mecanizado da soja quanto o deslocamento do vento.
Além da perda de produção, a substituição ou degradação dos vinhedos traz impactos sociais e econômicos profundos para as comunidades locais:
Empregos: A cultura da soja emprega, em média, um trabalhador para cada 500 hectares. Na viticultura, a densidade é de um funcionário por hectare.
Faturamento por hectare: Em anos favoráveis, a soja gera um rendimento médio de R$ 1,2 mil por hectare, enquanto a produção vinícola pode alcançar até R$ 300 mil por hectare.
Produtos à base de 2,4-D e dicamba simulam o hormônio vegetal de crescimento, desregulando o metabolismo da videira. Absorvidos pelas folhas e raízes, os defensivos causam deformações foliares, reduzem a capacidade de fotossíntese e impedem a formação de brotos e gemas para as safras seguintes. Com o dano contínuo, a planta definha progressivamente até perder totalmente a produtividade.
Sem risco ao consumidor: Especialistas ressaltam que o herbicida não permanece no fruto e, por isso, não apresenta riscos à saúde dos consumidores de uva ou vinho. No entanto, a deriva atinge também outras culturas frutíferas da região, como maçã, azeitona e nozes-pecã, afetando especialmente propriedades no Vale Central e na Campanha.