Quarta, 22 de Julho de 2026
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Bento Gonçalves pode se tornar referência nacional em longevidade saudável

Em encontro no CIC-BG, geriatra Emílio Moriguchi afirmou que o município tem tamanho e características favoráveis para desenvolver um projeto inspirado nas Blue Zones

Marcelo Dargelio
Por: Marcelo Dargelio
22/07/2026 às 09h38
Bento Gonçalves pode se tornar referência nacional em longevidade saudável
Emílio Hideyuki Moriguchi, pesquisador que há mais de três décadas estuda os fatores associados ao envelhecimento com autonomia e qualidade de vida - Fotos: Tiago Garziera/Exata Comunicação

Bento Gonçalves reúne condições para se tornar uma referência nacional em longevidade saudável. A avaliação é do médico geriatra Emílio Hideyuki Moriguchi, pesquisador que há mais de três décadas estuda os fatores associados ao envelhecimento com autonomia e qualidade de vida.

O especialista participou, na sexta-feira, dia 17, de um encontro promovido pelo Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves (CIC-BG), pelo movimento Bento+20 e pelo Hospital Tacchini. Realizada no auditório do CIC-BG, a programação reuniu mais de 120 pessoas para a exibição do documentário Conversas nas Zonas Azuis – Veranópolis e as Blue Zones, seguida de um bate-papo com Moriguchi, idealizador da obra.

Durante a conversa, o médico defendeu que Bento Gonçalves possui uma escala favorável à implantação de projetos comunitários voltados à saúde, à convivência e ao envelhecimento ativo.

Dr. Moriguchi recebeu lembranças do CIC-BG e do Conselho de Administração do Hospital Tacchini

 

“Não é preciso morar em uma Blue Zone para viver mais. Pode ser aqui. Bento Gonçalves tem o tamanho ideal para desenvolver projetos comunitários capazes de servir de exemplo para o Brasil. O importante é criar oportunidades para que as pessoas convivam, participem e construam uma comunidade mais forte”, afirmou.

O que são as Blue Zones?

A expressão Blue Zone — ou Zona Azul — é utilizada para identificar regiões com concentração excepcional de pessoas longevas, especialmente nonagenários e centenários. O termo surgiu a partir de estudos demográficos realizados na Sardenha, na Itália, onde pesquisadores marcaram com círculos azuis, em um mapa, as localidades que apresentavam indicadores elevados de longevidade.

O conceito ganhou projeção internacional por meio do escritor e pesquisador norte-americano Dan Buettner. Cinco regiões tornaram-se as referências mais conhecidas: Sardenha, na Itália; Okinawa, no Japão; Península de Nicoya, na Costa Rica; Icária, na Grécia; e Loma Linda, na Califórnia, nos Estados Unidos.

Apesar das diferenças culturais, geográficas e econômicas, essas comunidades apresentam características em comum. Entre elas estão a alimentação com predominância de vegetais, a atividade física incorporada naturalmente à rotina, a redução do estresse, a espiritualidade, o propósito de vida e a manutenção de vínculos familiares e comunitários.

Uma revisão científica sobre as evidências existentes aponta que algumas dessas regiões, como Okinawa, Ogliastra — área localizada na Sardenha — e Nicoya, possuem documentação demográfica mais consistente. O estudo também ressalta que nem todas as localidades apresentadas como possíveis Blue Zones contam com o mesmo nível de comprovação.

Veranópolis, incluída no documentário exibido em Bento Gonçalves, não integra a lista original das cinco Blue Zones. Conhecida como “Terra da Longevidade”, a cidade gaúcha é apresentada na produção como uma referência brasileira por abrigar, desde a década de 1990, pesquisas sobre envelhecimento e qualidade de vida coordenadas por Moriguchi.

A longevidade como construção coletiva

Um dos principais pontos defendidos pelo geriatra durante o encontro foi que viver mais e melhor não depende somente de genética, tratamentos médicos ou decisões individuais. Para Moriguchi, a longevidade também é construída pelas relações sociais e pelo sentimento de pertencimento.

“Provavelmente, o que estamos fazendo aqui hoje é uma das ações mais importantes para viver bastante, bem e ser feliz: estar fraternamente juntos, entre amigos. A longevidade e a felicidade são conceitos coletivos. Ninguém fica feliz sozinho, ninguém vive muito sendo sozinho. Precisamos aprender com as pessoas que envelheceram bem e construir comunidades onde as pessoas se sintam pertencentes”, declarou.

Segundo o médico, alimentação equilibrada e atividade física continuam sendo fundamentais, mas não devem ser analisadas separadamente da convivência social.

“O grande segredo da longevidade é estar junto. A solidão adoece. Precisamos fortalecer os vínculos, criar espaços de convivência e incentivar as pessoas a participarem da vida da comunidade”, destacou.

A afirmação encontra respaldo em estudos de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde considera a solidão e o isolamento social importantes determinantes da saúde. A entidade aponta que conexões sociais de qualidade estão associadas ao bem-estar físico e mental, enquanto o isolamento pode afetar a qualidade de vida e a longevidade.

Moriguchi explicou que os conhecimentos reunidos no documentário nasceram principalmente da convivência com pessoas idosas ao longo de mais de três décadas de pesquisa.

“Tudo o que foi mostrado eu aprendi com os idosos. O documentário resume, em 90 minutos, mais de 30 anos ouvindo pessoas que envelheceram com qualidade de vida. O que elas nos ensinam é que felicidade, propósito e relacionamento humano são tão importantes quanto qualquer tratamento”, disse.

Saúde também faz parte do desenvolvimento

Hilton Mancio destacou que o enfrentamento das doenças passa também pela transformação dos hábitos e das condições de vida

 

Para o CEO do Hospital Tacchini, Hilton Roese Mancio, a participação da instituição no Bento+20 está ligada à construção de uma cidade mais saudável nas próximas décadas. Ele destacou que o enfrentamento das doenças passa também pela transformação dos hábitos e das condições de vida.

“Quando começamos a discutir como seria Bento Gonçalves daqui a 20 anos, percebemos que os problemas do cotidiano precisam ser resolvidos agora, mas que o futuro depende de uma transformação dos hábitos de vida. A maior parte das doenças está relacionada ao estilo de vida, e não à genética. Por isso faz tanto sentido trazer esses conceitos para nossa região. Queremos ser um catalisador desse processo, ajudando as pessoas a viver mais e viver melhor”, afirmou Mancio.

O presidente do CIC-BG, Daniel Panizzi, observou que a longevidade também precisa ser compreendida como uma questão econômica e social.

“Quando olhamos para as regiões reconhecidas pela longevidade, percebemos que o resultado não é apenas uma população que vive mais, mas comunidades mais fortes, com melhor qualidade de vida e desenvolvimento social. Para uma entidade empresarial, esse também é um tema estratégico. Fortalecer a saúde e o bem-estar da população é contribuir para uma sociedade mais próspera e preparada para o futuro”, disse.

Reconhecimento exigiria dados e planejamento

A declaração de que Bento Gonçalves pode se tornar uma Blue Zone indica uma possibilidade, mas não representa o início de um processo formal de reconhecimento. Há duas situações distintas: a comprovação de que uma região já possui longevidade excepcional e a implantação de um programa comunitário inspirado nos princípios das Blue Zones.

No primeiro caso, seria necessário analisar registros demográficos confiáveis, expectativa de vida, concentração de nonagenários e centenários e outros indicadores, comparando os resultados locais com os do restante do país. No segundo, seria preciso estabelecer um diagnóstico inicial, definir metas e acompanhar indicadores como sedentarismo, alimentação, doenças crônicas, saúde mental, participação comunitária, mobilidade e autonomia funcional.

Assim, tornar-se uma referência em longevidade dependeria de um trabalho de longo prazo, com participação do poder público, sistema de saúde, universidades, empresas, entidades e moradores. Mais do que conquistar uma denominação, o objetivo seria construir uma cidade na qual viver mais também signifique viver com saúde, autonomia, vínculos e propósito.

O encontro no CIC-BG terminou com um espaço aberto para perguntas e troca de experiências. A programação também teve caráter solidário, com a arrecadação de fraldas geriátricas destinadas ao Grupo de Voluntariado do Hospital Tacchini, em apoio aos pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

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