
O avanço de fraudes digitais baseadas no vazamento e monitoramento de dados jurídicos fez mais uma vítima na Serra Gaúcha. O empresário Edivar Ressler, de 42 anos, morador de Bento Gonçalves, perdeu R$ 75 mil após ser alvo do chamado "golpe do falso advogado". A engrenagem do crime consiste em rastrear informações públicas de processos nos tribunais para, em seguida, contatar os clientes fingindo integrar os escritórios de advocacia responsáveis pelas ações.
No caso de Ressler, os criminosos utilizaram dados reais de uma ação de cobrança de R$ 18.500 que ele movia contra uma antiga inquilina. Com o andamento real do processo em mãos, os golpistas criaram um perfil em um aplicativo de mensagens com a foto do verdadeiro advogado do empresário. A abordagem começou simulando o padrão de atendimento do defensor, e seguiu no dia seguinte com a ligação de um falso promotor de Justiça, que induziu a vítima a realizar procedimentos bancários sob o pretexto de liberar o alvará. Pressionado pela agilidade dos criminosos, Ressler só percebeu a fraude quando foi instigado a contratar um empréstimo de R$ 30 mil. No total, o prejuízo consolidado foi de R$ 75 mil.
A dinâmica aplicada contra o empresário não é um fato isolado em Bento Gonçalves. Informações obtidas junto a autoridades policiais locais apontam que a mesma quadrilha fez ao menos outras três vítimas na cidade utilizando o mesmo roteiro.
Na mesma data e na mesma agência bancária em que Ressler opera, dois conhecidos dele sofreram desfalques de R$ 120 mil e R$ 170 mil. Há ainda o registro de uma funcionária de uma instituição financeira local que perdeu R$ 500 mil para o bando. Somados os casos conhecidos na região, a estimativa inicial é de que o montante total movimentado pela fraude na cidade já ultrapasse a barreira de R$ 1 milhão.
Para além do rombo financeiro e do jargão técnico utilizado para pressionar os clientes ao erro, o golpe do falso advogado deixa sequelas profundas na saúde mental de quem é Target da operação. A engenharia social agressiva e a sensação de violação da confiança desestruturam o cotidiano das vítimas, provocando quadros severos de culpa e isolamento.
Edivar Ressler decidiu romper o silêncio que frequentemente cerca as vítimas de estelionato e fez um relato contundente sobre o impacto emocional devastador que enfrentou nas horas seguintes à descoberta do crime:
"Dá uma vergonha enorme de ti mesmo; Pois você se sente culpado pelo erro, seu psicológico fica muito abalado e agora entendo o porquê das pessoas se matar em golpes assim; Tu fica destruído, com vergonha e principalmente peço a família e amigos a nunca deixarem essa pessoa sozinha por um tempo, graças a Deus tenho uma fé gigante em Deus e isso me segurou de não atentar sobre minha própria vida, pois as ideias surgem; A vida sempre terá alguém pra te colocar para baixo, mas sua fé em deus sempre será maior", conta Ressler.
O desabafo do empresário joga luz sobre a necessidade urgente de encarar o estelionato digital não apenas como uma perda patrimonial, mas como uma violência psicológica que exige redes de apoio familiar ativas para evitar desfechos trágicos.
Superar a barreira do julgamento interno e da humilhação pública é, segundo especialistas e as próprias vítimas, o passo mais importante para desmantelar essas quadrilhas. Ao expor a sofisticação e o profissionalismo dos criminosos, o empresário busca transformar o trauma sofrido em um escudo para que outros cidadãos fiquem atentos aos sinais do golpe.
Ressler finaliza com um apelo direto a todos que, porventura, venham a se passar por uma situação semelhante. "Não tenham vergonha e não pensem que são (burros) só quem passa sabe como eles são profissionais; Denunciar e falar vai fazer que outras pessoas não caiam neste golpe", aponta.
Autoridades e especialistas reforçam as principais diretrizes de segurança contra a fraude do falso advogado:
Exigência de pagamentos: Nunca realize depósitos, Pix ou pagamentos de boletos para liberar alvarás, custas ou indenizações judiciais. O recebimento de valores legítimos da Justiça não requer pagamento prévio do cliente.
Canais de comunicação: Desconfie de mensagens urgentes enviadas por números de WhatsApp desconhecidos, mesmo que tragam o nome e a foto do seu advogado ou o logotipo do escritório.
Confirmação oficial: Antes de fazer qualquer movimentação financeira ou fornecer códigos, ligue para o número de telefone fixo ou canal oficial de atendimento do seu escritório de advocacia. Se necessário, consulte o registro do profissional por meio da plataforma ConfirmaADV, da OAB.
Links suspeitos: Não clique em links recebidos por mensagem para atualizar dados ou fazer "testes" em contas bancárias.
Contate o banco imediatamente: Ligue para o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) ou canal de fraudes do seu banco para tentar bloquear os valores. Caso a transação tenha sido por Pix, solicite a abertura do Mecanismo Especial de Devolução (MED).
Preserve as evidências: Salve prints de todas as conversas, guarde os números de telefone utilizados pelos golpistas e os comprovantes das transferências feitas.
Registre o Boletim de Ocorrência: Apresente todas as provas guardadas à Polícia Civil. O registro do B.O. pode ser realizado presencialmente na delegacia mais próxima ou por meio da Delegacia Eletrônica.