Domingo, 07 de Junho de 2026
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Guardião das Copas: paixão de morador de Bento pelos álbuns de figurinhas

Com acervo único no RS, Charles Mietch reúne relíquias de 1970 a 2026 e transforma álbuns de figurinhas em herança afetiva para os filhos

Por: Jonathan Zanotto
07/06/2026 às 11h26 Atualizada em 07/06/2026 às 12h08
Guardião das Copas: paixão de morador de Bento pelos álbuns de figurinhas
O mago dos álbuns de figurinhas se orgulha das relíquias que guarda com carinho - Fotos: Jonathan Zanotto

Páginas folheadas que exalam o cheiro do tempo, rostos de lendas eternizadas em pequenos retângulos de papel e a pulsação de mais de cinco décadas do maior espetáculo da terra, guardadas em um único lar. Para o analista de tecnologia Charles Mietch, morador de Bento Gonçalves, a Copa do Mundo nunca dura apenas um mês.

Há várias décadas, ele transforma a paixão pelo futebol em um dos acervos mais impressionantes e raros do Rio Grande do Sul, reunindo álbuns, figurinhas inéditas, ingressos e tabelas oficiais que contam a evolução do esporte desde a era Pelé até o brilho de Messi e Cristiano Ronaldo.

Do interior de Crissiumal para a eternidade do futebol

A impressionante jornada do colecionador, hoje consolidada como uma das únicas e mais completas do Estado, teve um início humilde e puramente afetivo. Tudo começou na Copa do Mundo do México, em 1986. Charles, então com apenas oito anos de idade, foi fisgado pela febre dos cromos por influência de seu irmão mais velho, de 12 anos.

“Morávamos no interior de Crissiumal e íamos até a mercearia comprar chicletes para conseguir as figurinhas. Muitas vezes o interesse era mais pelas figurinhas do que pelo próprio chiclete”, relembra Charles, nostálgico, citando os tradicionais chicletes Ping Pong que embalaram aquela geração.

Charles Mietch tem todos os álbuns de figurinha desde a Copa de 1970

 

O que parecia uma brincadeira de menino atravessou décadas, resistiu às mudanças do mundo e transformou-se em um templo de memórias. Atualmente, a coleção ostenta os álbuns de 1970, 1974, 1978, 1982, 1986, 1990, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e o mais recente, de 2026. São relíquias completas e impecavelmente preservadas.

Mais que papel: um mapa de emoções e conquistas

Para quem olha de fora, são registros históricos de Copas; para Charles, é a Linha do Tempo de sua própria vida. Cada edição evoca sentimentos profundos. O jovem que um dia jogou nas categorias de base de clubes gaúchos como o Guarani de Venâncio Aires, o SER Caxias e o Esportivo, carrega no peito o orgulho de marcos muito claros.

O álbum de 1986 guarda o valor sentimental do pontapé inicial. Já a mística Copa de 1994 tem um lugar sagrado em seu coração. “Eu tinha 16 anos quando vi o Brasil conquistar o tetracampeonato mundial. Aquela seleção representava raça, união e superação”, destaca com emoção.

Além dos mantos de papel, Charles guarda o bilhete físico do jogo entre França e Honduras na Copa de 2014, no Brasil. Mais do que os gols na rede, o que ficou colado na alma foi a vivência: “Caminhávamos ao lado de torcedores de diferentes países, todos unidos pela paixão pelo futebol. Foi uma experiência inesquecível”.

A passagem do bastão: de pai para filhos

Se no passado completar um álbum exigia meses de caminhada, barganhas na calçada e persistência sem o auxílio da internet, hoje as redes sociais encurtaram as distâncias. Contudo, Charles defende que a verdadeira magia do colecionador recusa-se a virar digital. O maior brilho ainda está no toque, no olhar e no olho no olho — especialmente dentro de casa.

Desde 2014, a caçada ganhou reforços de peso. Os filhos Bruno e Amanda herdaram o "vírus" do futebol e passaram a integrar ativamente as trocas de figurinhas e a organização minuciosa das páginas. É essa conexão que transforma a coleção de Charles em algo muito maior do que um feito estatístico no Rio Grande do Sul.

“O maior orgulho não é apenas ter construído essa coleção. É saber que meus filhos também se apaixonaram por essa história e que ela continuará viva nas próximas gerações”, revela, emocionado.

Ao folhear seu acervo em Bento Gonçalves, Charles Mietch não reconecta apenas os fios da história de craques como Maradona e Romário. Ele reencontra a si mesmo. “Quando olho para minha coleção, não vejo apenas figurinhas. Vejo momentos da minha infância, da minha adolescência, da minha família e da história do futebol. Cada Copa representa uma fase da minha vida. O verdadeiro valor da coleção está nas memórias que ela preserva.”

E, com a sensibilidade de quem entende que o tempo corre tão rápido quanto um atacante em direção ao gol, o colecionador arremata com a máxima que norteia sua vida:

Eu não coleciono apenas álbuns. Coleciono histórias, emoções e lembranças de cada fase da minha vida. As Copas passam, os campeões mudam, mas as memórias permanecem para sempre.” – Charles Mietch.

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