
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul implementou uma mudança estratégica na estrutura de segurança pública para intensificar o combate aos crimes de gênero. Desde o dia 1º de maio, cinco Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAMs) localizadas em municípios polo do Interior e da Região Metropolitana tiveram seus horários de funcionamento ampliados. As unidades de Caxias do Sul, Canoas, Pelotas, Santa Maria e Passo Fundo agora atendem a comunidade das 8h30min às 12h e das 13h30min às 20h.
A extensão da jornada diária até o período da noite tem como objetivo principal facilitar o acesso à justiça, eliminando barreiras para mulheres que enfrentam ciclos de violência doméstica. Conforme a direção da instituição, muitas vítimas encontravam dificuldades para registrar ocorrências ou buscar medidas protetivas de urgência devido à incompatibilidade com as jornadas tradicionais de trabalho.
O diretor da 2ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana (2ª DPRM), delegado Cristiano Reschke, destacou que a reformulação atende a um clamor antigo dos movimentos sociais e das próprias redes de apoio municipais.
"Havia demanda após o horário das cinco horas [17h]", revelou Reschke. "Com a ampliação, a vítima tem a alternativa de deixar o seu posto de serviço ao final do expediente e se encaminhar diretamente à Delegacia da Mulher para formalizar a queixa, prestar depoimento ou simplesmente buscar orientações técnicas com a equipe."
Para garantir que o atendimento estendido mantivesse o mesmo padrão de sensibilidade e especialização, a chefia da Polícia Civil optou por não diluir o efetivo. O governo do Estado autorizou o pagamento de horas extras remuneradas para as agentes e escrivãs que já integram os quadros das DEAMs. Dessa forma, as vítimas continuam sendo amparadas por policiais civis mulheres devidamente capacitadas para lidar com traumas de violência física, psicológica e patrimonial.
A ampliação do horário operacional das delegacias ocorre em um momento delicado e de alerta nos indicadores criminais gaúchos. O primeiro quadrimestre de 2026 apresentou dados preocupantes na área de segurança familiar:
Feminicídios: O Rio Grande do Sul já contabilizou 36 mortes consumadas de mulheres por razões de gênero neste ano;
Tentativas de feminicídio: O indicador disparou, registrando uma alta de 75% no acumulado dos primeiros quatro meses de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025;
Lesões corporais: Os registros de agressões físicas domésticas subiram 1,4% no Estado;
Ameaças: Na contramão, as queixas por crimes de ameaça apresentaram redução de 8% em relação ao ano anterior.
Como parte das políticas de contenção, o Estado mantém o projeto "Monitoramento ao Agressor", iniciativa pioneira criada em 2023. Na cidade de Canoas, por exemplo, as forças de segurança monitoram em tempo real 29 agressores que utilizam tornozeleiras eletrônicas integradas ao sistema de geoprocessamento da Brigada Militar e Polícia Civil.
A direção da instituição reforça que, nos horários em que as DEAMs estiverem fechadas (durante a madrugada e nos finais de semana), as Delegacias de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) de cada município continuam funcionando normalmente em regime de plantão 24 horas para lavratura de flagrantes e acolhimento imediato de ocorrências de trânsito e violência doméstica.