
Um impasse burocrático e a flagrante falta de resolutividade do poder público têm tirado o sono do morador Vagner Stein Bertotti, residente no bairro Vinosul, em Bento Gonçalves. Há quase um ano, seu terreno sofre com severas infiltrações decorrentes de um vazamento na rede pluvial da rua Sigismundo Henrique Dytz, localizada na parte superior de sua propriedade.
Em vez de receber o amparo técnico e a manutenção necessária do município para conter o fluxo de água, o cidadão foi surpreendido com uma multa aplicada pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Ipurb). A punição ocorreu após ele realizar escavações para a construção da sua casa, evidenciando uma total inversão de prioridades na gestão da infraestrutura local, onde o lado mais fraco acaba pagando a conta pela omissão estatal.
A saga de Vagner começou quando ele percebeu uma umidade constante e água correndo livremente por seu terreno. Diante do cenário, ele acionou prontamente a Corsan. A companhia vistoriou o local e informou que a responsabilidade não era sua, visto que o problema envolvia a rede de escoamento pluvial — que é de competência estritamente municipal.
Ao procurar a Prefeitura de Bento Gonçalves, o morador viu-se preso em um frustrante "jogo de empurra" entre a administração pública e a concessionária de água. Enquanto ambos os lados se eximiam de culpa, os protocolos abertos pelo contribuinte venciam sucessivamente a cada 30 dias, sem qualquer resposta ou fiscalização prática.
Cansado da inércia e preocupado com a integridade de sua propriedade, Vagner recorreu à Defesa Civil via aplicativo de mensagens. O órgão enviou técnicos para averiguar a situação, mas, em vez de focar na origem do problema — o vazamento público na rua de cima —, a fiscalização concentrou-se na escavação que o morador havia feito no lote.
O resultado foi uma penalidade aplicada pelo Ipurb sob a justificativa de falta de licença e ausência de um muro de contenção. "Não teria como fazer muro de contenção em cima de barro, porque tem uma rede pluvial da rua de cima que tem vazamento e, consequentemente, meu terreno fica abaixo da rede, a água infiltra. Em dias de chuva vira tudo lama", desabafa o morador, ressaltando o absurdo técnico de se exigir uma obra estrutural sobre um solo permanentemente encharcado por culpa do próprio município.
Segundo Vagner, familiares, que possuem imóveis nos terrenos subsequentes ao lote, um técnico do Ipurb teria informado que a multa teria sido arquivada, até que as obras necessárias sejam feitas. A reportagem do NB Notícias entrou em contato com a Prefeitura de Bento Gonçalves solicitando um posicionamento do Ipurb e uma solução definitiva para o caso.
No entanto, reforçando o silêncio e o descaso que o morador enfrenta há meses, nenhum retorno foi obtido até o fechamento desta matéria. Vagner vive dias de extrema apreensão. Diante dos prognósticos meteorológicos que apontam chuvas constantes e volumosas para este inverno na Serra Gaúcha, o risco de a água danificar a rua acima do terreno ou derrubar um poste de energia elétrica que fica ao lado da sua residência ou, ainda, a água invadir sua casa, transformando a negligência pública no prenúncio de um desastre anunciado.
O caso de Vagner Stein Bertotti precisa servir de lição para a Administração Municipal de Bento Gonçalves sobre como não tratar um cidadão pagador de impostos. O poder público deve entender que sua função primordial é servir, amparar e resolver as demandas da comunidade, e não atuar puramente como um órgão arrecadador e punitivo quando as falhas estruturais partem do próprio município. Em situações de impasse como esta, a Prefeitura deve adotar uma postura proativa e humanizada, baseada em três pilares fundamentais:
1. Avaliação Técnica Integrada: Engenheiros do Ipurb, da Secretaria de Obras e da Defesa Civil devem analisar a causa raiz do problema (o vazamento da via pública) antes de penalizar o morador pelo efeito gerado em sua propriedade. Punições cegas ignoram a física e a engenharia.
2. Fim do "Jogo de Empurra" Institucional: O município deve possuir canais diretos e resolutivos com concessionárias como a Corsan para definir responsabilidades imediatamente, poupando o cidadão de atuar como intermediário de uma burocracia ineficiente.
3. Fiscalização Orientativa e Apoio: Em vez de emitir multas sumárias a um contribuinte que tenta proteger seu patrimônio da água pública, os fiscais devem oferecer orientação técnica, prazos viáveis de adequação e, sobretudo, a prefeitura deve executar a manutenção da infraestrutura sob sua tutela. Respeitar o pagador de impostos é garantir que o dinheiro do seu trabalho retorne em forma de segurança, dignidade e infraestrutura de qualidade.












