
A promessa era sedutora: avaliar hotéis em uma plataforma online, trabalhar poucos minutos por dia e receber rendimentos muito acima do mercado financeiro, por meio de um aporte financeiro. O resultado, no entanto, foi o prejuízo. O esquema, operado pela plataforma BMB, colapsou no último dia 30 de janeiro, deixando um rastro de dívidas e desespero na Serra Gaúcha.
O Departamento de Investigação (DI) do NB Notícias, contatou algumas pessoas que acreditaram na forma de ganhar dinheiro fácil e se deram mal. A estimativa é de que cerca de 700 pessoas em Bento Gonçalves podem ter perdido dinheiro no esquema. A investigação, liderada pela Delegacia de Polícia de Nova Prata, aponta que o modelo de negócio se trata de uma clássica pirâmide financeira, impulsionada pela "ganância" e pela falsa sensação de segurança repassada em reuniões presenciais e online.
A reportagem apurou que a expansão do golpe em Bento Gonçalves foi agressiva. Há relatos de que apenas uma família teria sido responsável por convidar cerca de 300 pessoas para o esquema. Para dar credibilidade ao negócio e captar novos investidores, eram realizados jantares e reuniões online (lives), onde os supostos lucros eram ostentados para convencer quem estava em dúvida. Até o final da tarde da sexta-feira, 6 de fevereiro, apenas duas ocorrências tinham sido registradas na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) de Bento Gonçalves.
Em um dos registros, a pessoa perdeu R$ 4.581,00 em dinheiro. Ela fez um primeiro aporte de R$ 2.040,00, e, como os juros do valor estvam crescendo rapidamente, resolveu realizar mais um aporte de R$ 2.541,00. Pelos cálculos do investidor, o retorno seria próximo dos R$ 15 mil no dia 30 de janeiro, o que acabou não acontecendo.
A delegada Liliane Pasternak Kramm, titular da DP de Nova Prata — cidade considerada o epicentro do golpe na região, com cerca de 5 mil lesados —, foi enfática em entrevista à Rádio Aurora FM, de Guaporé. "A ganância das pessoas fez com que elas perdessem muito dinheiro. A maioria fazia o depósito de R$ 2.040, com a pressa de ganharem R$ 7 mil após um mês. Tivemos casos de depósito de R$ 80 mil e R$ 120 mil", revelou a delegada.
O funcionamento era típico de pirâmide:
Aporte Inicial: O investidor pagava uma "caução" (geralmente R$ 2.040,00).
A Tarefa: Realizar avaliações falsas de hotéis na plataforma.
O Recrutamento: Para avançar de nível e ganhar mais, era obrigatório trazer, no mínimo, quatro novas pessoas.
A ilusão era tamanha que pessoas pediram demissão de empregos formais, venderam carros e pegaram empréstimos bancários para "investir". Em Nova Prata, duas pessoas foram demitidas de uma empresa local justamente por estarem aliciando colegas de trabalho durante o expediente.
No dia 30 de janeiro, a BMB suspendeu todos os pagamentos. A justificativa oficial dada pelos representantes nos grupos de mensagens é de que uma "auditoria interna" estaria sendo realizada, o que teria travado os saques e a entrega de brindes. Depois, surgiu a explicação de que a plataforma tinha sido invadida por hackers.
Porém, o cenário é de calote nacional. No site Reclame Aqui, explodiram denúncias de investidores de cidades como Pelotas, Uruguaiana, Passo Fundo, e até de outros estados como São Paulo e Minas Gerais. Em Jaboticabal (SP), investidores revoltados chegaram a soltar rojões em frente a um suposto escritório da empresa em protesto pelo atraso nos pagamentos.
A Polícia Civil orienta que as vítimas registrem boletim de ocorrência para auxiliar no mapeamento do tamanho do golpe e na identificação dos líderes.