
No sábado (3), mais de 45 mil torcedores lotaram a Arena de Pernambuco, em São Lourenço da Mata, para ver o Santa Cruz empatar por 1 a 1 com o Maringá e confirmar matematicamente a volta à Série B do Campeonato Brasileiro. À beira do gramado, comandando a festa coral, estava um nome bem conhecido de quem acompanha o futebol da Serra Gaúcha: Cristian de Souza, ex-treinador do Esportivo e morador de Bento Gonçalves.
O acesso encerra um período de nove temporadas em que um dos clubes mais populares do Nordeste alternou entre as séries C e D. A última vez que o Santa Cruz disputou a Segundona foi em 2017. Para o treinador, que completa 49 anos nesta terça-feira (6), é a conquista mais importante de uma trajetória longa e itinerante. "São mais de 26 anos de carreira para chegar a um acesso nacional", desabafou logo após o apito final, em entrevista ao canal SportyNet.
A chegada ao Santa Cruz foi uma escolha arriscada. Em maio, Cristian dirigia o Amazonas, que liderava a Série C com 13 pontos e 83% de aproveitamento. O clube amazonense, porém, enfrentava dificuldades financeiras. Do outro lado, o Santa Cruz somava apenas quatro pontos após cinco rodadas e ocupava a 15ª posição, perto da zona de rebaixamento para a Série D.
Há um detalhe curioso: dias antes de trocar de clube, Cristian havia vencido o próprio Santa Cruz por 1 a 0, na Arena de Pernambuco, ainda pelo Amazonas. Anunciado em 6 de maio e apresentado no dia seguinte, ele justificou a decisão pelo tamanho da camisa e da torcida coral.
O início não foi fácil. Logo na entrevista de apresentação, um torcedor que se dizia conselheiro do clube interrompeu a coletiva para cobrar que o novo técnico conhecesse a história do Santa Cruz.
A resposta em campo veio rápido. Na estreia, contra a Inter de Limeira, Cristian mudou o time para um sistema com três zagueiros, reintegrou jogadores que estavam afastados e venceu por 2 a 1, quebrando uma série de quatro jogos sem vitória. Antes dele, o aproveitamento do Santa Cruz na competição era de 26%; no início de julho, depois de oito partidas sob seu comando, o time já havia saltado da 16ª para a quarta posição.
A campanha teve contradições. Em casa, o time sofreu para propor o jogo e perdeu quatro das nove partidas como mandante na primeira fase. Fora, foi o oposto: invicto como visitante, com cinco vitórias e três empates. Assim, o Santa Cruz terminou a primeira fase em oitavo lugar, garantindo a última vaga no Quadrangular do Acesso.
Nem tudo foi tranquilo nos bastidores. Em julho, um desentendimento com o executivo de futebol Alex Brasil chegou a colocar em dúvida a permanência do treinador. Após reunião com o presidente Bruno Rodrigues, o clube decidiu mantê-lo no cargo.
No quadrangular, a marca do trabalho ficou evidente: a defesa. O Santa Cruz venceu Botafogo-PB, Maringá e Floresta, todos por 1 a 0, e chegou à quarta rodada com 100% de aproveitamento. Até a reta final, eram 22 jogos sob o comando de Cristian na Série C, com 47 pontos conquistados e cerca de 71% de aproveitamento, um dos melhores índices entre os técnicos das quatro divisões nacionais.
A partida decisiva começou com um susto. Com cerca de 20 segundos, o zagueiro Eurico perdeu a bola na saída de jogo e Adeílson Maranhão abriu o placar para o Maringá. O Santa Cruz demorou a reagir e ainda viu o goleiro Thiago Coelho fazer defesa importante antes do intervalo.
No segundo tempo, aos cinco minutos, Everaldo levantou a bola na área e Pedro Favela empatou de cabeça. O 1 a 1 levou o Tricolor a 11 pontos, garantindo matematicamente a vaga com uma rodada de antecedência. O Santa Cruz foi o primeiro clube a confirmar o acesso na Série C de 2026, e conquistou o segundo acesso seguido, depois do vice-campeonato da Série D em 2025.
"Ver essa massa feliz é muito gratificante", resumiu Cristian após o jogo.
Com o acesso garantido e a liderança do Grupo B, o Santa Cruz ainda disputa o título da Série C. O próximo compromisso é contra o Botafogo-PB, no sábado (10), às 17h.
Para Bento Gonçalves, fica o orgulho de ver um técnico que deu os primeiros passos no Alviazul escrever o nome na história de um dos clubes mais tradicionais do país. Para Cristian, o desafio passa a ser outro: provar, agora na Série B, que o primeiro acesso nacional foi o começo de uma nova etapa, e não o ponto de chegada.
Cristian Ziani de Souza nasceu em Quaraí, na Fronteira Oeste gaúcha, em 6 de outubro de 1977. Antes do campo, foi jogador de futsal e encerrou a carreira cedo, aos 24 anos, para se dedicar à função de treinador.
Foi em Bento Gonçalves que tudo começou. Indicado por Alceu Goulart Sousa, ex-zagueiro do Esportivo e figura marcante das categorias inferiores do clube, Cristian assumiu equipes de base do Alviazul no início dos anos 2000. Ali formou a geração que ficou conhecida como "Esportivo 91", campeã da Copa Mizuno, em Veranópolis, e bicampeã da Copa Serrana, além de outros torneios estaduais e nacionais. Os ex-atletas daquele grupo, que se reencontraram anos depois, ainda lembram com humor do temperamento do técnico à beira do campo, que rendeu a ele várias expulsões na época.
Da base, Cristian subiu para a comissão técnica profissional do Esportivo, onde foi auxiliar entre 2005 e 2008, e chegou a comandar o time principal em 2008. Fixou residência na cidade e, mesmo rodando o país nas duas décadas seguintes, manteve Bento Gonçalves como endereço.
O currículo de Cristian é um mapa do futebol brasileiro. Depois do Esportivo, passou por Veranópolis e Pelotas como auxiliar e, em 2010, chegou ao Grêmio, onde dirigiu as equipes sub-17 e sub-20 até 2011. Seguiram-se trabalhos na base do Figueirense e do Ceará, clube no qual chegou a comandar o time principal de forma interina em 2016.
Na Serra, voltou a trabalhar em clubes próximos de casa: dirigiu o Brasil de Farroupilha em 2015 e teve três passagens pelo Veranópolis, entre 2020 e 2022. Em abril de 2018, retornou ao Esportivo, desta vez como técnico principal, para a sequência da Divisão de Acesso do Gauchão.
Entre os trabalhos fora do estado estão Rio Branco-AC, Paraná (então na Série B, em 2017), Cianorte, Barra-SC, Patrocinense, Manauara, Botafogo-PB, CSA, Manaus, Luverdense, Marcílio Dias e Joinville. Na lista de conquistas aparecem a Série B do Gauchão de 2022 com o Monsoon, de forma invicta, a Copa FGF de 2023 com o São Luiz e a Copa Alagoas de 2024 com o CSA.