Na noite de 19 para 20 de setembro de 1835, as forças que preparavam a tomada de Porto Alegre já estavam posicionadas nos arredores da capital da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.
Um dos episódios decisivos ocorreu na Ponte da Azenha. Segundo relato histórico atribuído a Walter Spalding, um pequeno piquete de sete farroupilhas que fazia a vigilância do local encontrou um destacamento de cerca de 20 homens da Guarda Nacional, comandado pelo major José Egídio Gordilho de Barbuda. O confronto terminou com um legalista morto e quatro feridos, entre eles o comandante.
A repercussão militar foi muito maior do que a dimensão daquele primeiro choque.
O presidente da província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga, deixou Porto Alegre e seguiu para Rio Grande. No dia 20, os revoltosos entraram praticamente sem resistência na capital, enquanto grande parte do Corpo de Permanentes aderiu ao movimento. No dia seguinte, Marciano Pereira Ribeiro foi colocado no comando da província.
Começava a revolta mais duradoura do Brasil Império, encerrada apenas em 1845.
O 20 de setembro não marca a proclamação da República Rio-Grandense.
Isso aconteceu quase um ano depois, em 11 de setembro de 1836, quando Antônio de Souza Netto proclamou a República após a vitória farroupilha na Batalha do Seival. O ato ocorreu no Campo dos Menezes, área que hoje pertence ao município de Candiota.
A guerra terminaria em 1º de março de 1845, depois de quase dez anos de conflito.
O 20 de setembro, portanto, tornou-se símbolo por marcar a tomada da capital e a transformação de uma articulação política e militar contra o governo provincial e o poder central em uma revolta aberta. As causas envolviam disputas políticas por autonomia e poder na província e também conflitos econômicos relacionados, entre outros fatores, à produção e comercialização do charque.
Também é simplificadora a versão segundo a qual os rebeldes receberam o nome de “farrapos” porque combatiam com roupas esfarrapadas.
A denominação já circulava antes da revolta gaúcha para designar setores dos liberais exaltados. Evaristo da Veiga chegou a comparar o uso de “farroupilhas” ao dos sans-culottes da Revolução Francesa. A origem exata do termo possui interpretações diferentes, mas seu uso político antecede 1835.
Uma das histórias mais conhecidas da Revolução Farroupilha envolve a fuga de Bento Gonçalves da prisão na Bahia.
E, neste caso, há fundamento para o nado.
Preso no Forte do Mar, atual Forte de São Marcelo, em Salvador, Bento Gonçalves pediu autorização para tomar banho de mar em 10 de setembro de 1837. Durante o banho, nadou até uma canoa posicionada nas proximidades e preparada para auxiliá-lo na fuga.
A operação contou com ajuda de aliados na Bahia e teve participação de integrantes ligados à maçonaria. Bento conseguiria retornar ao Sul ainda naquele ano.
A história da Revolução Farroupilha também está no mapa da Serra Gaúcha, embora a imigração italiana tenha começado décadas depois do conflito.
Em 11 de outubro de 1890, o Ato nº 474 criou o município de Bento Gonçalves a partir de territórios das colônias Dona Isabel e Conde d'Eu. O nome homenageava Bento Gonçalves da Silva, uma das principais lideranças farroupilhas.
Dez anos depois, em 31 de outubro de 1900, Conde d'Eu foi elevado à condição de município e recebeu o nome de Garibaldi, homenagem a Giuseppe Garibaldi, que lutou ao lado dos farroupilhas.
Já Farroupilha foi criada em 11 de dezembro de 1934, pelo Decreto estadual nº 5.779. O novo município reuniu territórios de Nova Vicenza, Nova Milano, Linha Jansen e Nova Sardenha, e recebeu o nome durante os preparativos para o centenário da Revolução Farroupilha, celebrado em 1935.
Comunidades marcadas pela imigração italiana passaram, assim, a carregar no mapa nomes ligados à guerra ocorrida décadas antes da chegada dos colonizadores europeus à região.
A tradição precedeu o feriado.
A Semana Farroupilha foi oficializada pela Lei estadual nº 4.850, de 1964. A legislação posteriormente consolidou o período de comemorações entre 14 e 20 de setembro.
Já o feriado estadual do 20 de setembro só ganhou base legal em 1995. A Lei federal nº 9.093 estabeleceu que a data magna definida pelos estados poderia ser feriado civil. Dias depois, o Decreto estadual nº 36.180 determinou que, no Rio Grande do Sul, esse feriado seria celebrado em 20 de setembro.
Ou seja: 160 anos separaram o início da revolta, em 1835, da formalização do feriado em 1995.
Outro símbolo veio antes do feriado.
Em 1947, estudantes do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, organizaram ações de valorização das tradições gaúchas. O grupo que ficou conhecido como Grupo dos Oito teve papel central nesse movimento.
Mas foram três deles — João Carlos Paixão Côrtes, Fernando Machado Vieira e Cyro Dutra Ferreira — que, próximo da meia-noite de 7 de setembro, retiraram uma centelha da Pira da Pátria e a levaram para o colégio.
A chama permaneceu acesa até 20 de setembro. O gesto está na origem da Ronda Crioula e da atual Chama Crioula.
A memória farroupilha convive ainda com um dos episódios mais controversos do conflito: Porongos.
Homens negros, muitos deles escravizados, participaram das forças farroupilhas sob promessa de liberdade e formaram unidades conhecidas como Lanceiros Negros.
Na madrugada de 14 de novembro de 1844, tropas imperiais atacaram o acampamento farroupilha nas proximidades do Cerro de Porongos, hoje no município de Pinheiro Machado. Cerca de cem combatentes farroupilhas morreram e outros foram aprisionados; os negros estavam entre os mais atingidos.
O episódio originou uma controvérsia que atravessa a historiografia gaúcha.
Uma correspondência atribuída ao então barão de Caxias é usada para sustentar a tese de que teria havido um acordo para que David Canabarro facilitasse o ataque às tropas negras. Outros pesquisadores questionaram a autenticidade da carta ou rejeitaram a conclusão de que tenha existido uma traição previamente combinada. Não há consenso historiográfico suficiente para apresentar uma das versões como fato definitivamente comprovado.
O episódio, no entanto, permanece indispensável para uma leitura completa da Revolução Farroupilha — inclusive de suas contradições.