Rio Grande do Sul Turismo
A cidade da Serra extinta pelo STF que virou D.O. para espumantes
Pinto Bandeira voltou a ser distrito de Bento em 2001 e recuperou a autonomia em 2013; hoje abriga a primeira DO exclusiva de espumantes do Novo Mundo
19/09/2026 14h29
Por: Marcelo Dargelio
Espumantes naturais garantiram a denominação de origem para Pinto Bandeira - Foto: Blog Eduardo & Mônica

Por alguns anos, Pinto Bandeira simplesmente deixou de existir como município. Em junho de 2001, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a eficácia da lei estadual que havia recriado o município em 1999. Pinto Bandeira já tinha prefeito eleito e havia sido oficialmente instalada em janeiro daquele ano, mas voltou à condição de distrito de Bento Gonçalves. Os repasses federais foram interrompidos e teve início uma longa disputa jurídica pela autonomia da localidade.

A história, porém, havia começado antes. A primeira emancipação ocorreu em 1996. Depois de diferentes decisões judiciais e mudanças legislativas, o STF reconheceu novamente a autonomia de Pinto Bandeira em 2010. As eleições municipais foram realizadas em 2012 e o município foi reinstalado em 1º de janeiro de 2013.

Pinto Bandeira possui menos de 3 mil habitantes atualmente - Foto: Viagensecaminhos.com

 

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Hoje, Pinto Bandeira tem menos de 3 mil habitantes. O Censo 2022 registrou 2.723 moradores, enquanto a estimativa do IBGE para 2025 foi de 2.785.

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Uma conquista inédita no Novo Mundo

Vinte e um anos depois da decisão que retirou sua condição de município, Pinto Bandeira voltou ao cenário nacional por outro motivo.

Em 29 de novembro de 2022, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) reconheceu a Denominação de Origem Altos de Pinto Bandeira para espumantes naturais. Foi a primeira DO do Novo Mundo dedicada exclusivamente a esse tipo de bebida. A área delimitada possui 65 quilômetros quadrados. Desse total, 76,6% ficam em Pinto Bandeira, 19% em Farroupilha e 4,4% em Bento Gonçalves.

Vinícola Don Giovanni é uma das quatro que integram a D.O. Altos de Pinto Bandeira - Foto: Reprodução

 

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Somente três variedades de uva podem ser utilizadas nos espumantes com a certificação: Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico. As uvas precisam ser produzidas dentro da área delimitada, e os espumantes são elaborados pelo método tradicional, com segunda fermentação na própria garrafa e período mínimo de 12 meses.

O projeto levou cerca de dez anos e envolveu a Associação dos Produtores de Vinho de Pinto Bandeira (Asprovinho), a Embrapa Uva e Vinho e outras instituições de pesquisa. Quatro vinícolas integram atualmente a DO: Aurora, Don Giovanni, Família Geisse e Valmarino.

Cada produto certificado recebe um selo de controle numerado, com identificação do lote e da garrafa.

Exigências semelhantes às grandes regiões de espumantes

A comparação com Champagne, na França, deve ser entendida pelo sistema de denominação de origem e pelas regras de produção — e não como uma afirmação de que os produtos sejam iguais.

O pesquisador Jorge Tonietto, da Embrapa Uva e Vinho, que coordenou o projeto de estruturação da DO, afirmou à época que Altos de Pinto Bandeira alcançava uma estrutura de controle e exigência comparável à de denominações tradicionais de espumantes como Champagne e Franciacorta, na Itália.

Os vinhedos da DO ficam em altitudes entre aproximadamente 520 e 770 metros, em uma região de relevo ondulado e clima mais ameno, condições que ajudam a preservar características importantes das uvas destinadas aos espumantes.

Muito antes dos espumantes

Município é reconhecido como a Capital Estadual do Pêssego de Mesa

 

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A vocação agrícola de Pinto Bandeira não começou com o vinho. O município é reconhecido oficialmente como Capital Estadual do Pêssego de Mesa, título concedido por lei em 2019. A cultura do pêssego segue dividindo as encostas com videiras e outras frutas.

Essa combinação de história política incomum, agricultura e produção de espumantes transformou uma cidade que chegou a desaparecer administrativamente do mapa municipal do Rio Grande do Sul em um dos territórios mais singulares da vitivinicultura brasileira.