Seria cômico, se não fosse trágico. A menos de três semanas da eleição, com o Brasil repetindo que nunca esteve tão polarizado, o nome que mais aproximou esquerda, direita, Supremo e mercado financeiro não está em nenhuma urna. Está numa cela. Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, está preso desde março, suspeito de comandar o maior esquema de fraude financeira do país.
Imagine uma candidatura de Vorcaro à Presidência. Ela dispensaria coligação, porque a coligação já existia. Só nunca apareceu no horário eleitoral.
A carta da esquerda
Comecemos pelo Planalto. Registros do GSI mostram Vorcaro no Palácio pelo menos três vezes entre 2023 e 2024. Houve ainda um encontro fora da agenda oficial com o próprio Lula, em dezembro de 2024. O presidente diz que recebeu o banqueiro a pedido de Guido Mantega e que o avisou de que o Banco Central faria uma apuração técnica, sem interferência.
Mantega, por sua vez, era consultor do banco. Reportagem do Metrópoles apontou remuneração de cerca de R$ 1 milhão por mês. O escritório da família do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski recebeu cerca de R$ 6,5 milhões do Master, a maior parte depois de ele assumir o ministério. Lewandowski afirma que deixou o escritório e suspendeu o registro na OAB ao entrar no governo. O senador Jaques Wagner, líder do governo, confirmou ter indicado Lewandowski ao banco, mas nega ter indicado Mantega.
A carta da direita
Do outro lado do tabuleiro, a cena tem ares de novela. Em 2024, Vorcaro chegou de iate ao casamento da filha do senador Ciro Nogueira, cacique do PP e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro. Dez dias depois, o senador apresentou a proposta que ampliava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, conhecida no mercado como "emenda Master". A Polícia Federal afirma que o texto reproduziu integralmente a versão preparada pelo banco. A emenda não foi aprovada, e Ciro nega proximidade com Vorcaro e o recebimento de qualquer pagamento.
A família Bolsonaro também entrou no enredo. A PF aponta uma empresa como intermediária de repasses de Vorcaro para financiar Dark Horse, filme sobre o ex-presidente, com aportes conhecidos de US$ 12,3 milhões. O senador Flávio Bolsonaro nega ter recebido vantagem ou oferecido contrapartida.
A carta do centro
O BRB, banco controlado pelo governo de Ibaneis Rocha (MDB), tentou comprar 58% do Master por R$ 2 bilhões. Em depoimento, Vorcaro disse ter tratado da venda com o governador em sua casa. Ibaneis nega e atribui a negociação à direção do banco.
A carta do Supremo
O coringa também chegou à mais alta corte do país. Um dia depois de assumir a relatoria do caso, o ministro Dias Toffoli viajou em jatinho ao Peru com o advogado de um diretor do Master. Depois vieram informações de que Vorcaro havia comprado participações num resort da família do ministro, e Toffoli deixou o caso.
O escritório de Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, tinha contrato de R$ 129 milhões com o banco, interrompido pela liquidação. Agora vieram à tona mensagens que Vorcaro teria enviado a Moraes, com consultas sobre como deixar o país e escapar das investigações. A PF não identificou resposta do ministro, e Moraes não aparece no relatório como formalmente investigado. Mesmo assim, a disputa entre ele e André Mendonça abriu uma crise que os próprios ministros descrevem como inédita.
Nem toda carta tem o mesmo valor
É preciso separar as cartas, porque elas não valem o mesmo. Uma reunião fora da agenda não é crime. Um contrato milionário com escritório de parente de autoridade pode ser legal, mas é difícil de defender. Uma emenda escrita por um banco e apresentada por um senador, se confirmada, é outra categoria de problema. O que impressiona é que Vorcaro jogou em todos esses níveis ao mesmo tempo, com todos os lados.
No buraco, o coringa vale por qualquer carta. Vorcaro serviu à esquerda, à direita, ao centro, ao Judiciário e ao mercado. A única carta que nunca esteve na mão dele foi o cidadão comum.
A conta que sobrou para o povo
O povo só entra nesta história na hora de pagar. O rombo estimado para o FGC é de R$ 41 bilhões, o maior da história do fundo. O fundo é bancado pelos próprios bancos, e é difícil acreditar que esse custo não acabe, de algum modo, no balcão.
A conta mais cruel é outra. Institutos que pagam aposentadorias a servidores aplicaram R$ 1,8 bilhão em letras financeiras do Master, papéis sem garantia do FGC. O governo federal concluiu que, se faltar dinheiro, estados e municípios terão de cobrir o rombo. O maior aporte veio do Rioprevidência, investigado pela PF por transferências feitas na gestão do governador Cláudio Castro (PL). Mais uma carta da direita, desta vez paga com a aposentadoria de servidores.
Aqui na Serra, há um alívio e um alerta. Nenhum regime do Rio Grande do Sul aparece na lista oficial dos 18 que compraram esses papéis diretamente. Mas a pergunta vale para qualquer cidade: onde está aplicado o dinheiro da previdência dos servidores do seu município? A resposta é pública e deveria ser feita antes do próximo escândalo, não depois.
Houve quem não jogasse
Seria injusto dizer que todo o sistema se rendeu. O Banco Central vetou a venda ao BRB, por unanimidade, e depois liquidou o banco. A Polícia Federal seguiu o dinheiro. Um ministro do STF levantou o sigilo das mensagens. É por isso que o coringa hoje está numa cela, e não num palanque.
A história ainda não acabou. Vorcaro teve duas propostas de delação rejeitadas e, segundo a Veja, estaria preparando uma nova. Se ela sair, subprocuradores avisam que ele não poderá escolher quem expor e quem proteger.
Vorcaro não vai ser presidente. Mas a lista de quem atendeu o telefone dele diz mais sobre o poder no Brasil do que qualquer debate na televisão.