Faltam 30 dias para a eleição e a Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves colocou na tribuna, nesta sexta-feira (4), uma discussão que deveria interessar muito mais ao eleitor do que aos próprios candidatos. Durante uma moção apresentada pelo vereador Volnei Cristófoli (PP), surgiu o debate sobre a necessidade de Bento ampliar sua representação em Brasília e sobre os recursos destinados ao município por deputados de outras regiões.
A questão merece ser tratada sem paixão eleitoral. Bento deve continuar buscando emendas de todos os deputados dispostos a ajudar a cidade. Se um parlamentar de Porto Alegre, Caxias, Passo Fundo ou qualquer outro município consegue recursos para o Hospital Tacchini, para uma entidade ou para uma obra importante, isso é positivo. Quanto mais aliados, melhor.
Mas há uma diferença que precisa ficar clara: emenda parlamentar não é a mesma coisa que força política. Uma emenda pode resolver uma necessidade específica. Poder político significa ter capacidade de influenciar decisões, abrir portas e colocar as demandas da região entre as prioridades de Brasília. E é justamente aí que Bento precisa olhar para si mesma.
O município chega à eleição com 92.229 eleitores aptos. Possui indústria forte, turismo, vitivinicultura, agricultura, serviços e empresas com relevância muito além da Serra Gaúcha. Não é uma cidade pequena politicamente. Ou, pelo menos, não deveria ser.
A pergunta é simples: Bento consegue transformar todo esse peso econômico e eleitoral em influência política? Essa resposta não depende apenas do eleitor. Os partidos também têm responsabilidade. Precisam construir boas candidaturas, preparar lideranças e apresentar nomes capazes de disputar uma eleição competitiva. Não adianta descobrir a importância da representação regional apenas alguns meses antes da urna.
Mas o eleitor também participa dessa escolha. E aqui é preciso evitar um erro. Ninguém deve votar em determinado candidato apenas porque ele mora em Bento. CEP não é qualificação política. Um candidato da cidade pode ser um parlamentar ruim. Um deputado de outra região pode defender Bento com competência e compromisso. Portanto, a discussão não é “vote em quem é daqui”. A discussão é: quem estará realmente comprometido com Bento quando a eleição terminar?
Porque campanha passa. Fotografia passa. Promessa passa. O mandato fica por quatro anos. É depois da eleição que uma região descobre quem atende seus prefeitos, seus hospitais, suas entidades e seus setores produtivos quando surge um problema em Brasília. É nessa hora que representação política faz diferença.
Bento também precisa compreender que seus 92 mil eleitores não significam uma cadeira automática na Câmara dos Deputados. A eleição é proporcional e envolve o desempenho dos partidos e dos candidatos em todo o Rio Grande do Sul. Mas 92 mil eleitores representam força.
E força eleitoral pode se transformar em influência quando existe organização política, bons candidatos e voto consciente. Por isso, não faz sentido opor “deputados de fora” a “deputados de Bento”. Uma região politicamente inteligente precisa dos dois. Precisa de aliados em todo o Estado.
Mas também precisa construir lideranças que tenham vínculo permanente com seus interesses e que saibam que, quatro anos depois, terão de prestar contas à população da região. Talvez seja esse o verdadeiro debate levantado na Câmara nesta sexta-feira. Não se Bento deve agradecer ou não pelas emendas que recebe. Deve receber todas as que puder.
A questão é outra. Bento Gonçalves possui economia, população, instituições e eleitorado para ter mais influência política do que tem hoje. A força existe. O desafio é transformá-la em poder político.