Geral Opinião
Marcelo Dargelio: “Enquanto você defende um lado, alguém leva o dinheiro”
Colunista destaca que a briga entre esquerda e direita virou o melhor amigo da corrupção — porque torcedor não fiscaliza o próprio time.
02/09/2026 10h01
Por: Marcelo Dargelio
Nossos políticos profissionais entenderam que a polarização poderia render muito mais dinheiro para eles - Foto: Charge feita com IA

Faça um teste honesto. Lembre do último escândalo de corrupção que te indignou de verdade. Agora responda: ele envolvia o político em quem você vota ou o político que você detesta?

Se a resposta foi a segunda, bem-vindo ao clube. É assim com quase todos nós — e é exatamente por isso que a corrupção no Brasil não precisa mais se esconder. Basta esperar que a torcida faça o trabalho de sempre: relativizar o desvio do aliado e superdimensionar o do adversário.

A semana entrega o exemplo perfeito. O caso Banco Master é talvez o primeiro grande escândalo brasileiro rigorosamente bipartidário: um banqueiro que, segundo a investigação, cultivava pontes com ministro do Supremo, com senador de oposição, com gente do entorno do governo. O dinheiro não pediu título de eleitor a ninguém. E ainda assim, olhe as redes: metade do país usando o caso apenas para atacar Moraes, a outra metade apenas para atacar Flávio Bolsonaro. Cada lado enxergando com nitidez o metro quadrado que lhe convém.

Não começou agora. O mensalão foi tratado como perseguição por um lado; as rachadinhas, como picuinha pelo outro. A Lava Jato foi santa para uns até prender os seus, e perseguição para outros até alcançar os adversários. O orçamento secreto — talvez o maior esquema de captura de dinheiro público da história recente, distribuído sem critério e sem transparência — atravessou dois governos de campos opostos com apoio entusiasmado das duas bancadas. Quando a farra é de todos, ninguém grita.

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E enquanto isso, a conta. Estimativas de entidades empresariais e de estudos acadêmicos apontam que a corrupção consome dezenas de bilhões de reais por ano no Brasil — há cálculos da FIESP que passam de R$ 100 bilhões. Não é abstração. É o posto de saúde do bairro sem médico. É a escola do interior sem transporte decente — como as crianças que caminham no escuro para pegar a van, aqui mesmo no nosso interior. É a estrada esburacada que encarece o frete da indústria e do vinho que saem da Serra. Cada real desviado em Brasília falta num lugar com nome e endereço.

O mais perverso é que a polarização não é só cortina de fumaça: é modelo de negócio. Político que vive de guerra cultural não precisa entregar obra, não precisa prestar conta, não precisa explicar emenda. Precisa só apontar o inimigo. A indignação que deveria fiscalizar o poder foi domesticada e virou combustível de engajamento — a nossa raiva trabalhando de graça para quem deveria temê-la.

A saída não é o desencanto de "são todos iguais", que só produz abstenção e cinismo — e cinismo também é conveniente para quem desvia. A saída é mais chata e mais difícil: cobrar com a mesma régua. Desconfiar do contrato milionário mesmo quando o sobrenome é simpático. Exigir resposta sobre o dinheiro sem rastro mesmo quando o senador é do seu time. Ler a notícia até o fim antes de escolher a versão que conforta.

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Em outubro, cada um vai para a urna com suas convicções, e assim deve ser. Mas talvez a pergunta mais patriótica deste ano não seja "de que lado você está?". Seja: quanto está custando, para todos nós, o tempo que passamos brigando enquanto alguém leva o dinheiro?