Geral Bem-estar Animal
Nova sede animal abriga 35, mas Bento tutela 119 animais
Prefeitura inaugurou estrutura de 6 mil m² no bairro Imigrante; protetoras independentes apontam atendimento seletivo e falta de insumos, e o município responde que a transição é gradual
12/08/2026 11h50
Por: Jonathan Zanotto
Foto: Reprodução/Divulgação

A Prefeitura de Bento Gonçalves inaugurou a nova sede do Departamento de Bem-Estar Animal, uma estrutura de cerca de 6 mil metros quadrados com área de convivência ao ar livre, setor veterinário, baias para cães e gatos e áreas de recuperação. O investimento na área de alta complexidade — voltada ao socorro de animais atropelados ou feridos — soma R$ 500 mil.

A unidade, porém, começou a operar com capacidade para aproximadamente 20 cães e 15 gatos. O número contrasta com o total de animais sob tutela do município: são 105 cães e 14 gatos. Dos cães, 80 seguem hospedados em clínicas conveniadas e cinco estão internados em unidades parceiras.

"Primeira etapa", diz a prefeitura

Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Volnei Tesser, a permanência da maioria dos animais na rede privada decorre do caráter gradual da transição.

"A nova sede representa a primeira etapa da implantação da estrutura municipal de acolhimento. Atualmente, o município mantém aproximadamente 105 cães sob sua responsabilidade, dos quais cerca de 20 encontram-se na nova sede, enquanto os demais permanecem em hospedagem conveniada, mediante licitação", explicou.

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Questionada, a administração não informou prazos para a transferência completa nem o custo mensal com a hospedagem em clínicas privadas, remetendo aos processos administrativos e aos portais de transparência do município. Também não detalhou o custo total da obra, informando que os recursos integram a Lei Orçamentária Anual da Secretaria do Meio Ambiente.

No controle populacional, o município registra 467 castrações até julho de 2026, com meta de mais 400 procedimentos entre agosto e setembro, por meio de clínicas credenciadas e do Castramóvel. Na fiscalização, foram 264 atendimentos no ano.

O que dizem as protetoras

Quem atua na proteção independente aponta lacunas no atendimento. Naira Bernardete de Barba, representante da ONG Patas e Focinhos, afirma faltar clareza nos fluxos de atendimento e resgate. Ela reconhece o acesso a consultas gratuitas e castrações pelo município, mas diz que medicamentos e exames complementares acabam custeados pelas próprias ONGs ou pelos protetores. Sem sede física nem telefone oficial, a entidade depende do trabalho voluntário para responder aos apelos que chegam pelas redes sociais.

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Noely Olbacher, que atua há 30 anos na causa e abriga 36 animais resgatados, classifica o atendimento público como "seletivo". Segundo ela, animais em situação de rua frequentemente ficam sem resposta, a menos que o caso ganhe repercussão nas redes sociais. Ela relata que, no mesmo dia do anúncio da nova sede, o departamento teria alegado falta de vaga para acolher um cão abandonado na Vila Nova, e o resgate só ocorreu após a mobilização do caso na internet. A protetora também considera insuficiente o volume de castrações diante da demanda.

A resposta do município

Sobre os critérios de resgate, Tesser afirma que as prioridades observam parâmetros técnicos, legais e sanitários, voltados a situações de risco iminente à vida, maus-tratos ou determinação judicial. Não há prazo fixo para a fiscalização, segundo ele, porque os casos de risco à vida são atendidos primeiro.

O secretário afirma ainda que parte das denúncias recebidas não se confirma.

"Muitas denúncias recebidas são improcedentes, demandando tempo e profissionais direcionados ao endereço, deixando de atender o que de fato tem procedência", disse, pedindo que a população denuncie "com consciência".

Vale registrar, no entanto, que a denúncia de maus-tratos é anônima e que, diante de suspeita, a orientação de órgãos de proteção animal é comunicar — cabe à equipe técnica avaliar a procedência no local.

Sobre a articulação com as entidades, a prefeitura afirma manter diálogo contínuo e apoiar as ONGs com consultas, exames, cirurgias e castrações, conforme a Lei Municipal nº 6.277/2017, além de garantir assento com voz e voto no Conselho Municipal de Bem-Estar Animal. Segundo Tesser, o município estuda mecanismos para permitir o trabalho voluntário na nova sede.

A base legal da cobrança

A proteção aos animais e o combate ao abandono e aos maus-tratos são deveres previstos no artigo 225 da Constituição Federal. O Supremo Tribunal Federal já firmou entendimento que atribui aos municípios a responsabilidade de oferecer acolhimento e assistência veterinária sem transferir o encargo aos protetores voluntários — ponto central das cobranças feitas pelas entidades.

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