Política Opinião
Sim, o teu voto pode mudar Bento Gonçalves de patamar político
Marcelo Dargelio analisa que, com mais de 92 mil pessoas aptas a votar, Capital do Vinho poderia eleger, sozinha, dois deputados federais e três estaduais.
11/08/2026 18h14
Por: Marcelo Dargelio

Bento Gonçalves tem 92.229 eleitores. É um número que, sozinho, não diz muita coisa. Mas coloque ao lado deste outro: nas eleições de 2022, um deputado estadual se elegeu no Rio Grande do Sul com 24.946 votos (Gilmar Sossela, PDT). Um deputado federal, com 40.555 votos (Franciane Bayer, Republicanos).

Ou seja: se os eleitores de Bento decidissem agir em conjunto, esta cidade teria força para eleger, sozinha, até três representantes na Assembleia Legislativa e dois para a Câmara dos Deputados e ainda sobrariam votos. Não é hipótese. É aritmética. Só que, ninguém é ingênuo aqui, não é isso que acontece. E a razão está em dois números que quase ninguém olha.

O primeiro é a abstenção. Em 2022, um em cada cinco eleitores brasileiros simplesmente não foi votar. Foram quase 33 milhões de pessoas no primeiro turno — a maior taxa em mais de duas décadas. Em Bento Gonçalves, na mesma eleição, foram 16.139 pessoas que não votaram.

O segundo são os votos brancos e nulos. Somaram 4,2% no país. Em Bento foram  2.619 votos brancos ou nulos. E aqui cabe desfazer um mito que ainda circula: voto nulo não anula eleição. Não é protesto que conta. Ele é simplesmente descartado na apuração. Quem vota nulo não está mandando recado para o sistema — está apenas abrindo mão de participar da decisão, e deixando que outros decidam por ele. 

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Some as duas coisas e você terá a dimensão do que Bento desperdiça a cada eleição. Em 2022 foram 18.758 ou 20,5% dos votos no pleito eleitoral.

Por que isso importa mais do que parece

Muita gente acha que deputado é figura distante, que trabalha em Brasília ou em Porto Alegre e não tem nada a ver com o cotidiano da cidade. É o contrário. Emenda parlamentar que reforma uma UPA, que compra equipamento para hospital, que asfalta um acesso no interior — vem de deputado. Recurso para saneamento, para escola, para segurança — passa por deputado. Uma lei estadual que afeta a vitivinicultura, o turismo, o setor moveleiro — é votada por deputado. Quando um município precisa que uma rodovia federal seja duplicada, ou que uma ponte destruída seja reconstruída, quem faz a ponte entre a prefeitura e o dinheiro é, quase sempre, um parlamentar. Cidade sem representante não fica sem nada. Mas fica na fila. E entra na fila atrás de quem tem quem fale por ela.

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Como funciona o voto que quase ninguém entende

Aqui está o ponto que mais confunde o eleitor brasileiro, e vale entender antes de outubro. O voto para governador, senador e presidente é simples: quem tem mais voto, ganha. Chama-se sistema majoritário.

O voto para deputado estadual e federal funciona de outro jeito. É proporcional. Primeiro se calcula quantas cadeiras cada partido ou federação conquistou, com base no total de votos que recebeu — somando os votos de todos os seus candidatos mais os votos dados só à legenda. Só depois se define quais candidatos daquele partido ocupam essas cadeiras.

É por isso que acontece uma coisa que parece injusta e não é: um candidato pode ter 40 mil votos e não se eleger, enquanto outro, com 25 mil, entra. Depende do desempenho do partido inteiro.

E é por isso, também, que voto disperso vale menos que voto concentrado. Não estou dizendo em quem votar — essa escolha é sua, e é secreta por bons motivos. Estou dizendo que entender essa mecânica é o que separa o eleitor que decide do eleitor que só comparece.

O que está em jogo em outubro

Bento vive um momento em que várias decisões importantes dependem de instâncias que estão fora da cidade. A duplicação de rodovias. A reconstrução das travessias destruídas pelas cheias. A política de proteção do Vale dos Vinhedos. Os recursos para saúde e segurança. A tributação que afeta o vinho, os móveis e o turismo.

Nada disso se resolve só na prefeitura ou na Câmara de Vereadores. Passa por Porto Alegre e por Brasília.

Os 92.229 eleitores da nossa Capital do Vinho têm, nas mãos, a capacidade de colocar alguém naquelas mesas. Ou de, mais uma vez, deixar essa força escorrer entre os dedos — em abstenção, em voto nulo, em desinteresse.

A pergunta não é se o teu voto vale alguma coisa. Vale, e vale mais do que você imagina.

A pergunta é se você vai usá-lo a favor da cidade onde você vive, mora, trabalha e quer vê-la com mais possibilidades a partir de 2027.

 

Marcelo Dargelio é jornalista.

Este é um artigo de opinião e não reflete necessariamente a posição editorial do NB Notícias. O veículo não apoia nem recomenda voto em nenhum candidato ou partido.