Um morador do distrito de Tuiuty, em Bento Gonçalves, pagava cerca de R$ 123 por mês de energia elétrica. A conta que vence neste mês de agosto chegou com R$ 2.417,51 — quase 20 vezes mais. O NB Notícias teve acesso às duas faturas: a de junho, com vencimento em 23 de julho, no valor de R$ 123,81; e a de julho, com vencimento em 24 de agosto, de R$ 2.417,51. A diferença é de R$ 2.293,70, um aumento de 1.852%.
O consumidor, que pediu para não ser identificado, mora sozinho e afirma ter poucos eletrodomésticos em casa. E ele não está sozinho: mais de 119 moradores procuraram o Procon de Bento Gonçalves em busca de explicações sobre aumentos expressivos nas faturas.
A conta não fecha
Duas mudanças oficiais afetaram as faturas no período. Em 19 de junho, entrou em vigor o reajuste tarifário médio de 14,97% autorizado pela Aneel. Além disso, vigorou a bandeira tarifária amarela durante julho.
O problema é a dimensão. Aplicado sobre a conta anterior desse consumidor, o reajuste de 14,97% resultaria em uma fatura de aproximadamente R$ 142 — e não em R$ 2.417,51. O valor cobrado supera em mais de R$ 2,2 mil o patamar que os reajustes oficiais explicariam.
É justamente essa discrepância que o Procon aponta. Segundo o órgão, diversos valores cobrados excedem a soma dos reajustes oficiais.
Procon abre processos e aciona o MP
Diante das inconsistências, o Procon adotou medidas administrativas e jurídicas contra a concessionária RGE. Segundo o coordenador de Políticas Públicas do órgão, Alan de Moura Vieira, já foram instaurados mais de 30 processos administrativos contra a empresa.
"Diante dos relatos formalizados, somados às reclamações registradas no ano de 2025, já foram instaurados mais de 30 processos administrativos face à concessionária de energia elétrica, especificamente em relação à realização de cobranças abusivas e em patamar muito acima da média de consumo e do reajuste", afirmou.
O Ministério Público do Rio Grande do Sul também foi acionado, segundo o Procon, em razão do caráter repetitivo do comportamento da concessionária e da extensão dos danos à população.
O que diz a concessionária
Procurada, a CPFL RGE não reconhece erro nas faturas. Em nota, a empresa afirma que é comum o consumo médio das residências se alterar em períodos de temperaturas extremas, pelo uso mais frequente de chuveiros elétricos, aquecedores e outros equipamentos. Segundo a concessionária, o cenário resulta da combinação entre o aumento sazonal de consumo e o reajuste anual autorizado pela Aneel, de 14,98% em média para residenciais.
A empresa orienta os clientes a comparar o histórico de consumo dos últimos 12 meses, disponível na própria fatura, e destaca que o chuveiro elétrico é o aparelho de maior consumo — no modo inverno, o acréscimo pode chegar a 30%, e o banho passa a representar de 25% a 35% do gasto nos dias frios.
O que fazer se sua conta veio alta
O Procon orienta os consumidores a conferir atentamente, antes de pagar, o histórico de consumo, o período de leitura e a discriminação de valores da fatura. Se ficar comprovada cobrança indevida, o consumidor tem direito à revisão do valor e ao ressarcimento do que pagou a mais.
O atendimento presencial do Procon de Bento Gonçalves é na Rua Marechal Deodoro, 70. Também é possível registrar reclamação diretamente na concessionária e, se não houver solução, na plataforma consumidor.gov.br ou na Aneel.