Durante muito tempo, falar Talian foi um hábito cotidiano nas casas, lavouras, igrejas e pequenas comunidades formadas por descendentes de italianos. Para parte das gerações mais antigas, era a primeira língua aprendida em família. Entre os mais jovens, quando sobrevive, tornou-se frequentemente uma segunda língua — ou uma língua de herança, compreendida mais do que falada.
O Talian não é simplesmente o italiano com pronúncia brasileira. Também não chegou pronto nos navios que trouxeram os imigrantes. Ele se formou no Brasil, a partir de 1875, no contato entre diferentes falares do Norte da Itália — principalmente do Vêneto, mas também de regiões como Trentino-Alto Ádige e Friuli-Venezia Giulia — e o português encontrado nas áreas de colonização.
Esse encontro produziu uma língua própria, com vocabulário, pronúncias e variações regionais. O Talian incorporou palavras necessárias para descrever a vida no novo país e acompanhou os imigrantes em sua adaptação ao trabalho, ao clima, aos alimentos e às relações sociais brasileiras. Por isso, sua história pertence tanto à imigração italiana quanto à formação cultural do Brasil.
O reconhecimento veio oficialmente em 2014, quando o Ministério da Cultura concedeu ao Talian o título de Referência Cultural Brasileira. A língua passou a integrar o Inventário Nacional da Diversidade Linguística, instrumento de identificação e valorização dos mais de 250 idiomas falados no país.
A boa notícia é que existe um caminho — e ele está a poucos quilômetros de Bento. Serafina Corrêa, cidade vizinha na Serra Gaúcha, decidiu não deixar o Talian morrer e virou referência nacional em preservação.
Onde cerca de 90% da população tem origem italiana, o município cooficializou o Talian ao lado do português. Na prática, isso significa a língua em placas, em documentos e na vida pública da cidade. Aos domingos, programas de rádio são apresentados inteiramente em Talian — como o conduzido por Edgar Maróstica, que há anos mantém o idioma no ar. A cidade tratou o Talian não como relíquia de museu, mas como língua viva, com lugar no presente.
Serafina Corrêa prova um ponto essencial: uma língua ameaçada pode ser resgatada quando a comunidade e o poder público decidem, juntos, que ela vale a pena.
Apesar de sua importância, o Talian deixou de ser transmitido em muitas famílias. Uma das razões está na campanha de nacionalização promovida durante o governo de Getúlio Vargas, especialmente no Estado Novo e no período da Segunda Guerra Mundial.
O uso público de idiomas associados a países inimigos, como Itália e Alemanha, foi reprimido. Pessoas foram constrangidas, perseguidas e, em alguns casos, presas por falar ou cantar nas línguas das comunidades de imigração. O português passou a ser imposto nas escolas e em outros espaços públicos.
O efeito ultrapassou aquele período. O Talian passou a ser associado à falta de instrução, à vida rural e a um modo “errado” de falar. Pais que haviam sofrido humilhações decidiram não ensinar o idioma aos filhos, acreditando que o domínio exclusivo do português lhes daria melhores oportunidades.
Estudos da Universidade de Caxias do Sul mostram que a repressão criou um estigma duradouro. A língua foi perdendo espaço primeiro nos centros urbanos e, depois, dentro das próprias casas. Urbanização, casamentos entre pessoas de diferentes origens, escolarização em português e o predomínio da língua nacional nos meios de comunicação aceleraram essa substituição.
Hoje, muitos descendentes são falantes passivos: entendem palavras, expressões ou conversas, mas têm dificuldade para responder em Talian. Outros reconhecem apenas frases usadas pelos avós. Não existe uma contagem oficial de falantes, conforme destaca a Universidade de Caxias do Sul, o que também dificulta dimensionar a vitalidade atual da língua.
Uma pesquisa citada pelo Iphan constatou que o idioma continua mais preservado entre os idosos, mas perde força entre crianças e jovens. Em 2025, um projeto de salvaguarda mobilizou 41 municípios gaúchos e identificou mais de 500 iniciativas, entre programas de rádio, grupos culturais, publicações, cursos e atividades comunitárias. Naquele levantamento, 30 municípios do Rio Grande do Sul e quatro de Santa Catarina tinham o Talian como língua cooficial.
Quando uma língua desaparece, não se perde apenas uma lista de palavras. Desaparecem formas particulares de narrar o passado, transmitir receitas, nomear ferramentas, contar histórias, cantar, rezar, brincar e compreender as relações familiares.
O Talian guarda a memória da travessia dos imigrantes, da ocupação das colônias e do cotidiano construído por gerações de agricultores, artesãos e trabalhadores. Sua preservação não significa rejeitar o português nem tentar reproduzir a Itália no Brasil. Significa reconhecer uma experiência histórica brasileira.
Uma língua, porém, não permanece viva apenas porque foi declarada patrimônio. Ela precisa ser usada. Dicionários, gramáticas e gravações são essenciais para documentá-la, mas a sobrevivência depende da circulação entre as pessoas — especialmente da transmissão para crianças e jovens.
Por isso, especialistas e entidades defendem sua presença nas escolas, no rádio, em livros, filmes, músicas, peças teatrais, redes sociais e serviços públicos. Em 2024, o Iphan reeditou dois mil exemplares dos dicionários Talian-Português e Português-Talian de Darcy Loss Luzzatto, uma das principais referências no estudo do idioma. A iniciativa buscou ampliar o acesso ao vocabulário e fortalecer seu uso nas comunidades.
O município de Serafina Corrêa tornou-se uma das principais referências nacionais na preservação do Talian. O município foi pioneiro ao cooficializar a língua, ao lado do português, por meio da Lei Municipal nº 2.615, de 2009. Desde 2015, é conhecido como Capital Nacional do Talian.
Na cidade, o idioma ganhou placas bilíngues, programas de rádio, encontros de difusores, atividades culturais e cursos comunitários. Serafina Corrêa também abriga a Associação dos Difusores do Talian, a Assodita, responsável por ações de ensino, produção de materiais e articulação entre falantes de diferentes regiões.
Em 2025, o município sediou o 29º Encontro Nacional dos Difusores do Talian e o 4º Fórum Nacional da Língua Talian, reunindo pesquisadores, professores, comunicadores, artistas e representantes de entidades culturais.
O trabalho, entretanto, ainda está em construção. Em maio de 2026, a Câmara de Vereadores aprovou por unanimidade uma indicação para que o Executivo avalie a inclusão de aulas de Talian na revisão do Plano Municipal de Educação e a contratação de professores capacitados. Como alternativa inicial, o documento sugere oficinas e atividades extracurriculares em escolas e espaços culturais.
A proposta mostra que o reconhecimento simbólico precisa ser acompanhado por políticas permanentes. Cooficializar, instalar placas e promover eventos dá visibilidade, mas formar professores e colocar crianças em contato regular com a língua é o que pode assegurar uma nova geração de falantes.
O exemplo de Serafina Corrêa também ensina que o Talian não deve permanecer restrito às lembranças dos mais velhos ou aparecer apenas em festas típicas. Para continuar vivo, precisa servir novamente para conversar, ensinar, criar e contar histórias.
Preservar o Talian é devolver dignidade a uma língua que já foi motivo de perseguição e vergonha. É permitir que os descendentes não apenas saibam que seus antepassados a falavam, mas tenham a oportunidade de aprendê-la, usá-la e transmiti-la. Uma língua morre quando deixa de passar de uma geração para outra. E permanece viva quando encontra espaço no presente.