Saúde Futuro
Bento Gonçalves pode se tornar referência nacional em longevidade saudável
Em encontro no CIC-BG, geriatra Emílio Moriguchi afirmou que o município tem tamanho e características favoráveis para desenvolver um projeto inspirado nas Blue Zones
22/07/2026 09h38
Por: Marcelo Dargelio
Emílio Hideyuki Moriguchi, pesquisador que há mais de três décadas estuda os fatores associados ao envelhecimento com autonomia e qualidade de vida - Fotos: Tiago Garziera/Exata Comunicação

Bento Gonçalves reúne condições para se tornar uma referência nacional em longevidade saudável. A avaliação é do médico geriatra Emílio Hideyuki Moriguchi, pesquisador que há mais de três décadas estuda os fatores associados ao envelhecimento com autonomia e qualidade de vida.

O especialista participou, na sexta-feira, dia 17, de um encontro promovido pelo Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves (CIC-BG), pelo movimento Bento+20 e pelo Hospital Tacchini. Realizada no auditório do CIC-BG, a programação reuniu mais de 120 pessoas para a exibição do documentário Conversas nas Zonas Azuis – Veranópolis e as Blue Zones, seguida de um bate-papo com Moriguchi, idealizador da obra.

Durante a conversa, o médico defendeu que Bento Gonçalves possui uma escala favorável à implantação de projetos comunitários voltados à saúde, à convivência e ao envelhecimento ativo.

Dr. Moriguchi recebeu lembranças do CIC-BG e do Conselho de Administração do Hospital Tacchini

 

Continua após a publicidade

“Não é preciso morar em uma Blue Zone para viver mais. Pode ser aqui. Bento Gonçalves tem o tamanho ideal para desenvolver projetos comunitários capazes de servir de exemplo para o Brasil. O importante é criar oportunidades para que as pessoas convivam, participem e construam uma comunidade mais forte”, afirmou.

O que são as Blue Zones?

A expressão Blue Zone — ou Zona Azul — é utilizada para identificar regiões com concentração excepcional de pessoas longevas, especialmente nonagenários e centenários. O termo surgiu a partir de estudos demográficos realizados na Sardenha, na Itália, onde pesquisadores marcaram com círculos azuis, em um mapa, as localidades que apresentavam indicadores elevados de longevidade.

O conceito ganhou projeção internacional por meio do escritor e pesquisador norte-americano Dan Buettner. Cinco regiões tornaram-se as referências mais conhecidas: Sardenha, na Itália; Okinawa, no Japão; Península de Nicoya, na Costa Rica; Icária, na Grécia; e Loma Linda, na Califórnia, nos Estados Unidos.

Continua após a publicidade

Apesar das diferenças culturais, geográficas e econômicas, essas comunidades apresentam características em comum. Entre elas estão a alimentação com predominância de vegetais, a atividade física incorporada naturalmente à rotina, a redução do estresse, a espiritualidade, o propósito de vida e a manutenção de vínculos familiares e comunitários.

Uma revisão científica sobre as evidências existentes aponta que algumas dessas regiões, como Okinawa, Ogliastra — área localizada na Sardenha — e Nicoya, possuem documentação demográfica mais consistente. O estudo também ressalta que nem todas as localidades apresentadas como possíveis Blue Zones contam com o mesmo nível de comprovação.

Veranópolis, incluída no documentário exibido em Bento Gonçalves, não integra a lista original das cinco Blue Zones. Conhecida como “Terra da Longevidade”, a cidade gaúcha é apresentada na produção como uma referência brasileira por abrigar, desde a década de 1990, pesquisas sobre envelhecimento e qualidade de vida coordenadas por Moriguchi.

A longevidade como construção coletiva

Um dos principais pontos defendidos pelo geriatra durante o encontro foi que viver mais e melhor não depende somente de genética, tratamentos médicos ou decisões individuais. Para Moriguchi, a longevidade também é construída pelas relações sociais e pelo sentimento de pertencimento.

“Provavelmente, o que estamos fazendo aqui hoje é uma das ações mais importantes para viver bastante, bem e ser feliz: estar fraternamente juntos, entre amigos. A longevidade e a felicidade são conceitos coletivos. Ninguém fica feliz sozinho, ninguém vive muito sendo sozinho. Precisamos aprender com as pessoas que envelheceram bem e construir comunidades onde as pessoas se sintam pertencentes”, declarou.

Segundo o médico, alimentação equilibrada e atividade física continuam sendo fundamentais, mas não devem ser analisadas separadamente da convivência social.

“O grande segredo da longevidade é estar junto. A solidão adoece. Precisamos fortalecer os vínculos, criar espaços de convivência e incentivar as pessoas a participarem da vida da comunidade”, destacou.

A afirmação encontra respaldo em estudos de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde considera a solidão e o isolamento social importantes determinantes da saúde. A entidade aponta que conexões sociais de qualidade estão associadas ao bem-estar físico e mental, enquanto o isolamento pode afetar a qualidade de vida e a longevidade.

Moriguchi explicou que os conhecimentos reunidos no documentário nasceram principalmente da convivência com pessoas idosas ao longo de mais de três décadas de pesquisa.

“Tudo o que foi mostrado eu aprendi com os idosos. O documentário resume, em 90 minutos, mais de 30 anos ouvindo pessoas que envelheceram com qualidade de vida. O que elas nos ensinam é que felicidade, propósito e relacionamento humano são tão importantes quanto qualquer tratamento”, disse.

Saúde também faz parte do desenvolvimento

Hilton Mancio destacou que o enfrentamento das doenças passa também pela transformação dos hábitos e das condições de vida

 

Continua após a publicidade

Para o CEO do Hospital Tacchini, Hilton Roese Mancio, a participação da instituição no Bento+20 está ligada à construção de uma cidade mais saudável nas próximas décadas. Ele destacou que o enfrentamento das doenças passa também pela transformação dos hábitos e das condições de vida.

“Quando começamos a discutir como seria Bento Gonçalves daqui a 20 anos, percebemos que os problemas do cotidiano precisam ser resolvidos agora, mas que o futuro depende de uma transformação dos hábitos de vida. A maior parte das doenças está relacionada ao estilo de vida, e não à genética. Por isso faz tanto sentido trazer esses conceitos para nossa região. Queremos ser um catalisador desse processo, ajudando as pessoas a viver mais e viver melhor”, afirmou Mancio.

O presidente do CIC-BG, Daniel Panizzi, observou que a longevidade também precisa ser compreendida como uma questão econômica e social.

“Quando olhamos para as regiões reconhecidas pela longevidade, percebemos que o resultado não é apenas uma população que vive mais, mas comunidades mais fortes, com melhor qualidade de vida e desenvolvimento social. Para uma entidade empresarial, esse também é um tema estratégico. Fortalecer a saúde e o bem-estar da população é contribuir para uma sociedade mais próspera e preparada para o futuro”, disse.

Reconhecimento exigiria dados e planejamento

A declaração de que Bento Gonçalves pode se tornar uma Blue Zone indica uma possibilidade, mas não representa o início de um processo formal de reconhecimento. Há duas situações distintas: a comprovação de que uma região já possui longevidade excepcional e a implantação de um programa comunitário inspirado nos princípios das Blue Zones.

No primeiro caso, seria necessário analisar registros demográficos confiáveis, expectativa de vida, concentração de nonagenários e centenários e outros indicadores, comparando os resultados locais com os do restante do país. No segundo, seria preciso estabelecer um diagnóstico inicial, definir metas e acompanhar indicadores como sedentarismo, alimentação, doenças crônicas, saúde mental, participação comunitária, mobilidade e autonomia funcional.

Assim, tornar-se uma referência em longevidade dependeria de um trabalho de longo prazo, com participação do poder público, sistema de saúde, universidades, empresas, entidades e moradores. Mais do que conquistar uma denominação, o objetivo seria construir uma cidade na qual viver mais também signifique viver com saúde, autonomia, vínculos e propósito.

O encontro no CIC-BG terminou com um espaço aberto para perguntas e troca de experiências. A programação também teve caráter solidário, com a arrecadação de fraldas geriátricas destinadas ao Grupo de Voluntariado do Hospital Tacchini, em apoio aos pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).