Os produtores de alho do Rio Grande do Sul enfrentam uma das crises mais severas da história recente da cultura. Enquanto dão os primeiros passos no plantio da safra de 2027, as famílias de agricultores ainda tentam equalizar as contas e cobrir os rombos financeiros deixados pela colheita anterior. Com os custos de produção operando muito acima do valor de mercado pago pelo quilo do produto, o setor relata prejuízos generalizados e alerta para o risco iminente de desabastecimento e abandono massivo da atividade tradicional na metade norte do Estado.
De acordo com a Associação Gaúcha de Produtores de Alho (Agapa), o principal fator para o colapso econômico das propriedades locais é a entrada massiva de alho importado, oriundo majoritariamente da Argentina e da China, que chega às gôndolas brasileiras com preços artificialmente baixos. Para tentar recuperar a competitividade, a categoria defende a ampliação e o fortalecimento de medidas de defesa comercial, como a aplicação rigorosa de taxas antidumping.
A realidade nas propriedades rurais da Serra Gaúcha ilustra o descompasso financeiro que sufoca os pequenos produtores:
Preço abaixo do custo: Enquanto o custo médio para produzir o alho no Sul gira em torno de R$ 13 por quilo, os agricultores foram obrigados a vender sua produção por valores que oscilaram entre R$ 5 e R$ 7 o quilo — quantia que não cobre sequer metade dos investimentos;
Corte de áreas em São Marcos: O produtor Jaime Menegon, com 46 anos de experiência na cultura em São Marcos, revelou que mantém 20% da safra estocada por falta de compradores. Diante do cenário, sua família reduziu a área de cultivo de 14 para apenas quatro hectares;
Dívidas em Farroupilha: Na localidade de Nova Milano, em Farroupilha, o agricultor Neomar Araldi estima um prejuízo contundente de aproximadamente R$ 80 mil por hectare, o que forçou a redução da equipe de trabalhadores de sua propriedade pela metade.
A crise provocou um encolhimento histórico na atividade. Segundo dados da Agapa, a região Sul do país, que já chegou a cultivar cerca de 8 mil hectares de alho no início da década de 1990, conta hoje com apenas 1,4 mil hectares — uma retração drástica de quase 85%. A perda de rentabilidade ameaça diretamente a sucessão familiar e a diversificação agrícola nas pequenas propriedades rurais.