Gastronomia Mesa farta
Galeto al primo canto: a tradição que Bento Gonçalves serve à mesa
Nascido da escassez enfrentada pelos imigrantes italianos há 150 anos, o prato se tornou símbolo da gastronomia e do enoturismo da Capital do Vinho.
03/07/2026 10h45 Atualizada há 2 horas
Por: Marcelo Dargelio

Não existe visita a Bento Gonçalves que se complete sem um galeto al primo canto. Assado na brasa, dourado no espeto, servido no centro de uma mesa farta de polenta, massas e vinho, ele é quase um rito de passagem para quem chega à capital brasileira do vinho. Mas por trás desse prato aparentemente simples existe uma história de 150 anos que começa com escassez e engenhosidade — e que ajuda a explicar por que, em Bento Gonçalves, comer galeto é um gesto de pertencimento.

O que é o galeto al primo canto

O galeto al primo canto é o prato mais representativo da culinária típica da Serra Gaúcha: uma ave de leite, abatida ainda jovem, aberta e achatada, temperada com uma pasta aromática e assada no espeto sobre a brasa de carvão. O nome vem do italiano e significa "ao primeiro canto" — referência à ave abatida por volta dos 25 a 30 dias de vida, quando o galo começa a cantar pela primeira vez. Não é frango comum: pesa no máximo entre 500 e 700 gramas depois de limpo, e é essa juventude que garante a carne macia e o sabor delicado.

Como surgiu o galeto na Serra Gaúcha

Os imigrantes italianos que colonizaram Bento Gonçalves e a região Uva e Vinho, a partir de 1875, vinham em sua maioria do norte da Itália — principalmente do Vêneto e da Lombardia. Ao chegarem, receberam lotes pequenos, de cerca de 25 hectares cada, cobertos de mata fechada.

Nesses lotes, plantavam apenas o essencial para a subsistência: milho, trigo e videiras. Faltava proteína. Não havia, nos primeiros anos, espaço nem recursos para criar animais de grande porte. A solução veio da mata: os colonos passaram a caçar passarinhos, assados na brasa e servidos com polenta — a farinha de milho que se tornaria a base da alimentação colonial.

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Ali nasceu a ideia que viraria o galeto: aves pequenas, jovens, assadas no fogo, acompanhadas de polenta. Um prato que nasceu da necessidade de quem tinha pouco — realidade vivida nas colônias de Bento tanto quanto em toda a região da imigração italiana.

Qual é o tempero tradicional do galeto

O tempero original levava sal, sálvia, vinho, alho e pimenta vermelha conservada em vinagre de vinho tinto

 

O que separa um galeto qualquer do galeto al primo canto tradicional é o tempero — a alma do prato. O tempero original levava sal, sálvia, vinho, alho e pimenta vermelha conservada em vinagre de vinho tinto. Todos os ingredientes, exceto o sal, eram passados num moedor até formar uma pasta; o sal entrava por último.

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A ave é temperada de preferência na véspera, para que os sabores penetrem na carne, e depois assada por igual sobre o fogo. Ao longo das décadas, o tempero ganhou variações — cebola, manjericão ou manjerona, salsa, cebolinha —, mas a lógica permanece: uma pasta aromática que impregna a carne antes de ela encontrar a brasa.

Por que Bento Gonçalves se tornou referência em galeto

O restaurante Di Paolo é uma das referências quando o assunto é Galeto Al Primo Canto

 

A origem comercial da galeteria está na vizinha Caxias do Sul, onde, em meados dos anos 1950, o casal Lauthércio e Adélia Peccini começou a servir galeto no restaurante de seu hotel. Mas foi ao se espalhar pela Serra Gaúcha que o galeto encontrou seu território definitivo — e Bento Gonçalves o incorporou de tal forma que hoje é impossível pensar na mesa bento-gonçalvense sem ele. No início dos anos 90, a iguaria tornou-se um sucesso nos restaurantes da Capital do Vinho e é destaque até os dias de hoje. 

A razão é econômica e cultural ao mesmo tempo. Bento se consolidou como um dos maiores polos de gastronomia italiana e de enoturismo do Brasil, recebendo visitantes o ano inteiro. O galeto virou parte central da experiência de quem vem conhecer o Vale dos Vinhedos, os Caminhos de Pedra e os distritos do interior. Em Bento, o prato se casou com a lógica da sequência italiana — o rodízio de pratos típicos que se repete à vontade, adaptação colonial que se tornou a refeição mais procurada pelos turistas.

Foi em Bento Gonçalves, cercada de vinhedos e de restaurantes que preservam as receitas das nonnas, que o galeto deixou de ser um prato da Serra para se tornar um símbolo de identidade servido diariamente.

Por que galeto e vinho combinam tão bem

É impossível falar de galeto em Bento Gonçalves sem falar de vinho. Os dois cresceram juntos.

Enquanto o vinho era produzido nas propriedades familiares — em cada colônia, cada família tinha sua parreira e sua cantina —, o galeto se firmava como a principal proteína das festas e dos encontros de domingo. Um completava o outro. A carne assada na brasa pedia o tinto encorpado da casa; o vinho ganhava sentido à mesa farta.

Mesa farta e ótimos vinhos são uma marca registrada de Bento Gonçalves

 

Essa ligação atravessou gerações. Hoje, praticamente todas as galeterias de Bento e da Serra servem vinho da região como acompanhamento natural da refeição — muitas vezes o vinho da própria vinícola onde o restaurante funciona. É a expressão, no prato e na taça, de uma cultura que fez do vinho e do galeto duas faces da mesma herança da imigração italiana.

Onde experimentar um galeto al primo canto autêntico

Para quem quer viver essa tradição, Bento Gonçalves e a Serra Gaúcha são o lugar. A cidade preserva o galeto al primo canto em diferentes formatos: nos restaurantes tradicionais e churrascarias da cidade, nos restaurantes do Vale dos Vinhedos que servem o prato ao lado dos vinhos da casa, e nas propriedades dos distritos do interior — como Faria Lemos e Tuiuty —, onde famílias mantêm o preparo no espeto e no carvão como se fazia há décadas. Os restaurantes Di Paolo, Churrascaria Ipiranga e Giordani Gastronomia são algumas das opções para saborear esta delícia na Capital do Vinho.

Mais do que uma refeição, é uma imersão na culinária típica da Serra: a polenta cremosa ou frita, as massas artesanais, a salada de radiche, os tortéis e capeletes, e o galeto no centro de tudo. Em Bento, essa experiência está disponível o ano inteiro — e ganha um charme especial no inverno, quando o frio da Serra combina com a comida de conforto e a brasa acesa.

Um gesto de 150 anos

O galeto al primo canto é hoje muito mais do que um prato. É um patrimônio cultural da Serra Gaúcha e um símbolo da identidade de Bento Gonçalves. Ele conta, em cada refeição, a trajetória dos imigrantes: a escassez dos primeiros anos, a criatividade para sobreviver, a prosperidade que veio depois e a generosidade que transformou a necessidade em celebração.

Na próxima vez que alguém cortar um pedaço de galeto, mergulhar a polenta no molho e erguer uma taça de vinho da Serra, talvez esteja repetindo um gesto iniciado por imigrantes que, há 150 anos, transformaram a escassez em tradição. É essa história que continua sendo servida diariamente à mesa.


Por que essa história continua importante?

Porque o galeto al primo canto é um dos pilares da identidade gastronômica que faz de Bento Gonçalves um dos maiores destinos de turismo e sabor do Brasil. Contar sua história com profundidade — da caça a passarinhos ao casamento com o vinho local — fortalece o vínculo entre a cidade e sua herança italiana. E consolida Bento como o lugar onde essa tradição não apenas sobreviveu, mas se tornou um convite permanente à mesa.